O futebol e o vazio da fama: as queixas de Andrade

O homem é um animal social. A sociabilidade exige ritos, ordens, regras, festas, afetividades. Viver é conviver, já disse o poeta Drummond. Não longe dos conflitos, da troca de favores, dos prazeres extasiantes, das antipatias mal resolvidas. Perdemos. Ganhamos. As mudanças nem acontecem como queremos.

O capitalismo acirra as disputas e incentiva a competição. Há um individualismo marcante nos desejos da contemporaneidade. A necessidade de exibir-se faz parte frequente do cotidiano. Não se cultiva a solidariedade, mas a desigualdade e os sonhos materiais.

Discussões existem, com os mais variados e estranhos argumentos, sobre os amores e os desequilíbrios da humanidade. Isso não basta. Aumentam as incertezas e consolidam a incompletude. No entanto, a complexidade do social não é sinal de redenção, nem de um desespero sem fim.

O  inesperado nos ajuda a conviver com a invenção. É importante não sermos parceiros da superficialidade. A mesmice  impera, atrai, inferniza. As contradições são muitas, em todos os lugares, na tristeza e na alegria.

Interessam-me as opiniões das pessoas e os registros das histórias. Nesta semana, assisti a um programa de esportes, apresentando uma entrevista que me deixou perplexo. A figura, em foco, era Andrade, ex-técnico e jogador do Flamengo. Fiquei concentrado na sua fala de lamentações. As razões eram muitas. Não parecia irritado, mas preocupado.

Ele não entendia certas dificuldades que estava atravessando. O tom era dramático. Conseguiu ser campeão brasileiro,  articulou o controvertido elenco do Flamengo e, agora, enfrentava o ostracismo. Queria voltar a trabalhar, mas não encontrava onde. Caminho sem volta?

Os desencontros de Andrade fazem parte do mundo do  futebol. A fama é fugaz, ilude. Seu feito não o consagrou como planejava. Dirigiu uma equipe cheia de intrigas e ciúmes. Lá estavam Bruno, Vagner Love, Adriano e tantos outros. O sucesso foi visível, sua habilidade impressionante. Tudo passou, porém, com uma velocidade incrível.

Andrade é uma pessoa simples, não mostra arrogância e, sim, vontade de continuar sua carreira. Jogou muito futebol, junto com outros craques do passado. Está ligado ao clube da Gávea e aberto a retornar às jornadas anteriores. Encontra-se isolado.

Percebe-se o vazio que o angustia. É vítima dos êxitos, sem profundidade, tão comuns no futebol. Não é um exemplo raro. Ele tem coragem de denunciar e se expor. Muitos se escondem ou morrem de vergonha. São escravos da fama e embriagam-se com o perfume das manchetes.

Não compreendem a dimensão ilusória que encobre tanto as astúcias do mundo dos interesses. Quem não se entrega aos seus dramas? A convivência possui múltiplos ritmos. Um bom maestro a conduz com harmonia. Escapa das dissonâncias e busca sons impossíveis, com as cores das borboletas soltas num jardim de rosas vermelhas.

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