O futebol lembra a vida e suas sutis artimanhas

Engana-se quem ver o mundo como uma composição de fragmentos distantes. Tudo se toca, mesmo que não sejam visíveis as semelhanças. Existem muitas informações circulando. O descartável assume  um lugar inquestionável na produção dos objetos. Mas a humanidade persiste, com seus sentimentos e ambições, fundando suas histórias e construindo suas narrativas.

Todas as invenções da cultura simbolizam desejos e alimentam futuros. O que foi vivido, no entanto, não está morto. Permanece na memória e pode ganhar até mais força. Não há como sacudir no lixo a nostalgia. O vaivém da vida não acena com conclusões definitivas.Lembranças e esquecimentos fazem parte das ousadias ou dos medos de cada um. Há sempre a pressão do social, deslocando limites, com muita pressa.

O mundo do futebol insere-se no cotidiano. Faz parte ativa das conversas, é presença obrigatória na mídia. Muitos o menosprezam, outros não exergam a importância dos jogos para a imaginação e os costumes. O perde e ganha ensina, prepara para decepções inesperadas. As simulações representam necessidades. As emoções, também, se mostram. As pessoas se transformam nos estádios, arrancam suas máscaras e acendem suas impaciências.

Os profissionais da bola não ficam restritos às disputas dos campeonatos. Lançam-se, mesmo depois de encerradas as carreiras. Arriscam-se em outras aventura. Bebeto e Romário participam da atual da campanha política.   Até Lula, o Presidente, não abandona o seu Corinthians. Nos seus discursos, explora as chamadas metáforas futebolísticas. O compromisso, com os clubes gera votos. Pelé foi Ministro do poderoso sábio FHC.

A Fifa tem um prestígio imenso. Influencia governos e se coloca no centro do amplo negócio das diversões e lazeres. Quem não quer sediar uma Copa do Mundo? Não interessam os sacrifícios, o passar por cima das desigualdades. A grana corre  solta nos cofres das multinacionais do esporte. Observem como Ronaldo, o Kantiano, é bem visto no Timão de São Paulo. Quase não joga. Atrai, porém, patrocinadores. Seu carisma funciona. 

A complexidade da sociedade requer cuidado. Reduções preconceituosas empobrecem o colorido que cobre as tantas construções culturais humanas. Sem astúcias,  não se arquitetam novas experiências, nem se compreende a dimensão do lúdico. A urgência das notícias transforma os meios de comunicação num formulador de pedagogias. Podem ser superficiais, vitrines de manequins disformes, mas é preciso crítica para enfrentá-las.

As muitas relações que compõem a vida social, portanto afirmam o vir-a-ser constante da nossas fantasias. Não há esclarecimentos absolutos sobre os nossos destinos ou sobre as nossas origens. As especulações multiplicam-se e prosseguirão se multiplicando. O jogo é uma das cartografias da vida. Sintetiza artimanhas, descobre malícias, agita invejas, massifica mercados.

Quem escuta, apenas, os silêncios e se desfez dos ruídos, terminou distraindo a sua sensibilidade. As dissonâncias também organizam suas sinfonias. Não podemos abraçar tudo, nem ser os senhores de todos os conhecimentos. Acreditar na fragilidade do humano tem sentido, mas se negar a atravessar suas sinuosas trilhas, consagrando o linear, é consolidar uma solidão demolidora.

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2 Comments »

 
  • marcio lucema disse:

    Antonio,

    Você fala de Ronaldo, o Kantiano…
    Crítica da Razão Pura ou Crítica da Razão Prática?
    Apriorismo Kantiano (e um olhar para o mundo do fenômeno) ou imperativo categórico (age apenas segundo um princípio tal que possas ao mesmo tempo querer que ele se torne lei universal)?
    Essa sua metáfora merecia um artigo inteiro!

    abraço
    marcio lucena

  • Márcio

    Pois é, considero que até Kant ficaria perplexo com as astúcias do Ronaldo. Escreveria outra obra prima. Realmente, o cara se mexe como pensamento veloz.
    abs
    antonio paulo

 

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