O império do cinismo e da tragédia cotidiana

 

 

O mundo se constrói nas diferenças. As hierarquias persistem, mudam de lugares. Sinais para transformações e muita complexidade  nos inquietam. As pessoas se deslocam, conseguem furar esquemas de poder. No entanto, a sociedade mantém o ritmo, reprime. Quem parecia rebelde se deixa levar pelas arrogância de quem condenava. Continuam os fingimentos, os autoritarismos. O narcismo não perde a cena, convoca outros autores, prepara novos textos, provoca ressentimentos, multiplica espetáculos. Muitos arquitetam sonhos revolucionários que não cabem numa caixa de sapatos. Glorificam-se como anjos que acabaram com a maldade.Enganam-se à toa.

Se a lógica opressora não se vai, mudam-se apenas as vestimentas . Chega a prepotência do cinismo e se ajustam relações. Nada que provoque reviravoltas. Um dança que consagra o passado, porém esconde nas ruas  um labirinto. Um sensação de frustração chama desconfianças e a sociedade apodrece reproduzindo dificuldades. Há uma necessidade de salvadores. Quem quer visitar a coragem? O discurso disfarça o sentimento e afasta as possibilidades. Imagina-se o impossível e celebra-se a mudez. Ninguém compreende ninguém, o ruído da irritação fere o coração. Ocupa-se o vazio, não se realiza a redefinição. Os olhares se tornam duros e áridos.

O mundo repleto de multidões contemplando as vitrines como se tivessem curtindo uma obra de Picasso. Desconfia-se  de um caos inesperado, sem nome, de um clamor de mídia interessada em apressar a venda das notícias.  O medo cria um desamparo estranho. Somos estrangeiros num mundo que inventamos. Vemos as leis serem manipulados e a mentira desfilarem como novidades insuperáveis. Ninguém alerta que tudo se toca, que a dor não é exclusiva, que a fuga faz arruinar a sociabilidade.  Há uma fábrica de ídolos genéricos: Moro, Bolsonaro, FHC, Crivella… Os refugiados urbanos dormem nos bancos das praças e nas portas das igrejas. Os políticos em berços esplêndidos.

Se os paradigmas não ganham outras formas, não temos como escapar do vulcão que ameaça explodir. A transparência não existe, pois o mercado tem até a soberania da dor. As quadrilhas urbanas são sofisticadas, usam computadores, possuem técnicos de alta especialização, se comunicam com códigos, acumulam milhões. Há quem não se importe com a simulação. Entrega-se. Talvez imagine que a história o julgará com celebrações tardias. Prometeu está acorrentado. As análises são tentativas de não ficar nas perguntas. Perde-se o senso, perde-se o perdão. Não há volta ao paraíso. As lágrimas das frustrações  negam o acaso.

As solidariedades aparecem com o bombardeio da mídia.  Somos frágeis, mas não fugimos da conquista de privilégios. Com a morte, a saudade dá sinais de que o mundo é pequeno ou nós somos uma poeira teimosa.Morre-se em busca da alegria, na emboscada da surpresa. Os cinismos, porém, sobrevivem. A queda do avião da Chapecoense foi mais que uma tragédia. Lá estavam desejos acesos, conversas soltas. Diante de tantos impasses, temos que buscar pausas, embora as vitrines continuem brilhando. É preciso sentir que a incompletude não é uma invenção. É confuso desenhar a vida. A violência é cena comum, traiçoeira.

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