O instável (des)encantamento do mundo

Muito se fala do desencantamento do mundo. Tema presente nos esconderijos acadêmicos e nas polêmicas sobre a modernidade. O que levaria a tantas dúvidas e desconsolos? Este mundo que oferece o banquete a todos e fecha a porta no nariz de tantos,  é ao mesmo tempo igualador e desigual: igualador nas ideias e nos costumes que impõe e desigual nas oportunidades que proporciona( Eduardo Galeano). As ambiguidades, multiplicadas pelas promessas revolucionárias, é uma pista. A falência dos entusiasmos com o progresso, a melancolia trazida pelo desamparo afetivo e cinismo fecundo dos discursos políticos mostram a complexidade de isolar-se numa única justificativa.

A produção incessante de ideias e o aumento da intensidade da vida urbana fermentam impactos e desvarios. As cidades trazem o desconhecido e ampliam os negócios. Outros hábitos se instalam, pois as invenções modernas apressam as trocas de modas e de sentimentos. Tudo isso não anula o passado. A história sobrevive com os entrelaçamentos dos tempos. Como o domínio da tecnologia, os objetos passam a ocupar lugares de pessoas. Há um grave esquecimento do humano, devido à valorização do status social com a acumulação de mercadorias. O fetiche se materializa, na medida em que o alfabeto da esperteza prospera, sem impedimentos.

O pó da ruína  agrega-se às estéticas renovadoras. Nem todos se conformam com os sons e os desenhos que substituem as concepções realistas ou desfazem as lembranças das pinturas de Giotto(acima), Da Vinci, Miguel Ângelo. O modernismo deu respostas surpreendentes às inquietações do eu. Surgem as vanguardas que trabalham outras representações. A subjetividade se apresenta, de forma decidida, envolvida com as leituras do romantismo e as interpretações freudianas. Salvador Dali, Picasso, Magritte transformam leituras do mundo e significam geometrias inesperadas. Não dá para testemunhar o ir e vir da história, sem as transgressões.

O retorno não sinaliza com o desejo de um paraíso perdido, mas serve para reformular ou misturar ansiedades que pareciam sem ânimo. É preciso compreender que a tradição sustenta o que aparece, mesmo que o culto ao novo se mantenha. O vínculo, com o passado, é uma maneira de exercitar  a autonomia. Se o amor é a maior das virtudes, como desmontar as lembranças, se ele requer continuidade e não fragmentações radicais? O  absolutamente encantado é uma impossibilidade, porém mora nos corações.  Ajuda a se desviar das perdas e dos desencontros. Essa confusão é permanente. Não estamos pendurados em escalas infinitas. A relatividade é o contraponto da respiração.

Tropeçamos. Mergulhamos. Cruzamos desertos. Decifrar as perguntas das esfinges da vida é uma navegação, guiada por estrelas ou instrumentos computadorizados. Há escolhas: prefere um submarino atômico ou embarcação mítica de Ulisses? As fronteiras estreitas das narrativas são vestígios de experiências. Passamos de uma narrativa  para outra, desacompanhados de profecias. Muitas vezes, não cabem atrevimentos e nos curvamos. Os horizontes brilham e imobilizam, com cegueiras instantâneas. A agonia, de cada momento, possui o seu avesso.Entre eu compro, eu sinto, eu penso, eu viajo, nos abraçamos com o inventar exaustivo de ações e palavras. O desencantamento intimida, mas rompe com o descanso adormecido na desconfiança.

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11 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, o pensamento de Galeano apresenta a faceta mais cruel do desencantamento do viver humano. Se no banquete do mundo há lugar, há “comes e bebes” para todos, porque a maioria fica longe da mesa?
    Há um tipo de “pecado” pouco explorado no nosso mundo tão efêmero, o pecado social. Aquele que nos obriga a sentir coletivamente os desconsolos e, buscar juntos, as saídas mais solidárias. Mas até o “sentimento de culpa” e a “redenção dos pecados” são apresentados sob a ótica individualista.
    Como edificar a nossa humanidade?
    Rezende não cessa de nos lembrar que “a história sobrevive com os entrelaçamentos dos tempos.” É imperativo que não deixemos os objetos ocupar os lugares das pessoas. Ainda bem que “nem todos se conformam com os sons e os desenhos que substituem as concepções realistas ou desfazem as lembranças das belas pinturas”. (…) “Surgem as vanguardas que trabalham outras representações.”
    É a busca permanente para se manter de pé, se reanimar, exercer a autonomia, a capacidade de amar, de se encantar, de transformar impossíveis em possibilidades, de realizar os desejos mais bonitos…
    O que seria da vida Antonio, sem as estrelas a nos guiar em meio aos desertos? Ou a embarcação de Ulisses a ampliar nossos horizontes, em meio às águas turbulentas do cotidiano?
    Com certeza, seríamos menos atrevidos e nos curvaríamos com mais facilidade.
    Obrigada, Antonio, por nos lembrar que “a agonia, de cada momento, possui o seu avesso.” E que vale a pena, ou melhor, vale a vida “romper com o descanso”, com “o instável (des)encantamento do mundo” !!!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    O avesso garante que as possibilidades mudam. Já pensou a mesmice nos perseguindo? Por isso, o desencantar esconder muitas coisas. Não é só pessimismo.
    bjs
    antonio paulo

  • João Paulo Lucena disse:

    Professor,
    Deixe-me ver se entendi corretamente. Quando o senhor fala “O retorno não sinaliza com o desejo de um paraíso perdido, mas serve para reformular ou misturar ansiedades que pareciam sem ânimo”.
    Isto bate de frente, dentre outras coisas, com o próprio argumento legitimador utilizado pelos historiadores modernos: “aprender com o passado” ou de “prever com o futuro”.
    O que lembra também os bens culturais, acentuadamente os patrimônios, uma vez que funcionam como máquinas do tempo que atribuem um sentimento de pertencimento e atuam como remissão a memória, sensibilidades e emoções.
    Gumbrecht fala que “essa “experiência direta do passado” deveria incluir a possibilidade de tocar, cheirar e provar estes mundos através dos objetos que os constituíram”. Porém, essa historicização de objetos não visa um congelamento num lugar e espaço. Mas, como o senhor ressaltou: “o vínculo, com o passado, é uma maneira de exercitar a autonomia”.
    O que pode ser expresso numa frase de Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda o ser, muda-se a confiança; todo mundo é feito de mudança, tomando-se sempre novas qualidades”.

    até quinta.

  • João Paulo Lucena disse:

    Seria mais ou menos por aí?

  • João

    Muitas boas suas reflexões. A história se faz no diálogo entre os tempos. Isso deve ter a atenção do historiador.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    Será a rotina o fermento para o desecantamento e para a busca incessante do novo?

  • Gleidson

    A história tem muitas idas e vindas. As coisa aparecem novas, depois são desprezadas. As insatisfações provocam mudanças e permanências. Tudo é ambíguo.
    abs
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    O desencantamento com o mundo sempre existiu e continuará existindo. Por mais que o homem evolua intelectual, social e financeiramente, temas como disparidades e preconceitos ainda se farão presentes nas discussões acadêmicas, nas pautas de políticas públicas e nas conversas de botequins. Entre o resultado dos jogos de domingo, a decisão na Fórmula 1 ou o final da novela haverá sempre dois a três minutos de dedicação à reflexão fugaz dos problemas (ou mazelas) sociais. O domínio tecnológico contribui sobremaneira para isso. Ele é tamanho, que raciocinar passou a ser tarefa que se desenvolve entre momentos de “start” e “stand by”: a mente humana passou a trabalhar com margem de tempo certo, estando sempre garantida a pausa do cérebro para o comercial(momento em que a concentração se perde), a exemplo dos intervalos dentro das progamações televisivas. Se os objetos passaram a ocupar o lugar das pessoas, estas, por sua vez, tornaram-se objetos da “mass media”. É a (desencantada) sociedade do espetáculo que Guy Debord já anunciava na década de 1950.
    A narrativa histórica, nesse contexto de desencantamento com o mundo e parca reflexão (ou reflexão comedida) sobre os acontecimentos mundanos, permite o resgate da memória e a reformulação das ansiedades, pois ainda que falte encanto restará sempre a certeza de que alguma coisa valeu, vale e valerá a pena.

  • Christiane

    É sempre uma luta tentar dar conta de tudo. Impossível. As lacunas são muitas. Muitas coisa agrada e anima, outras se perdem. A vida é muita ambiguidade e incerteza.
    Grato pela leitura e o as boas reflexões.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo Mello disse:

    O

  • Paulo

    Faltou alguma coisa?
    abs
    antonio paulo

 

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