O insustentável peso histórico da colonização

A atual situação tensa, no Oriente Médio, trouxe expectativas e dúvidas. É uma região que possui tradição secular de confrontos. A violência compõe o quadro das suas relações sociais, desde os tempos mais remotos, nas disputas de terras e de espaços estratégicos. Muitos povos formaram suas culturas, firmaram suas identidades, enfrentaram dificuldades variadas, envolvidos em guerras duradouras.  Hoje, a globalização veste outras modas. Os meios de comunicação trazem proximidades e transformam os comentários em conversas do cotidiano. A democracia voltou a ser discutida, com mais destaque, e a religião muçulmana não saiu do foco sobre as alternativas futuras. Há muitas dissidências. Nem tudo é harmonia entre os rebeldes.

As lutas lembram a famosa saga da (des) colonização. Os países europeus mostram-se participantes e querem consagrar suas posições. Divulgam um discurso em favor do entendimento. Detonam as tiranias. Exigem providências da ONU. Há uma inquietude incrível. Mesmo os Estados Unidos, cheio de problemas, não se cala. Obama não perde a vez. Celebra a queda dos ditadores. Não se acanha em oferecer ajuda financeira. Sabe da força econômica do petróleo. O jogo diplomático se amplia, alguns apostam em novos negócios e outros esperam por maiores definições.

Kadafi está desprezado. Amargura isolamento. Seus antigos amigos o desfiguram, se queixam do autoritarismo e das corrupções do seu governo. Comparam seus atos aos dos faraós. Esquecem do passado, das alianças comemoradas com festas e ressaltam o poder de salvação da democracia. Não se dão ao trabalho de olhar para o interior das suas sociedades. Mudam perspectivas, anulam evidências. O pior é não se atrelar às mudanças na geopolítica, pensam eles. Os senhores do mundo não se controlam na formulação das astúcias necessárias, para não se desfazerem do foco das  conquistas.

As memórias são manipuladas. Muitos silenciam, disfarçam. É importante que os ditadores partam, que os rebeldes ganhem fôlego. Ninguém está, aqui, defendendo a permanência de poderes vitalícios. Quanto mais o coletivo expressar seus projetos, melhor para a sociedade superar os desmantelos. No entanto, o diálogo com outras épocas não dever ser apagado.  Autoridades, assanhadas, hoje, pelos discursos democráticos, comandaram, já, ações colonizadores e preservam, em seus países, posturas preconceituosas contra os imigrantes. Basta observar as medidas do governo francês e as confusões que existem nas fronteiras internacionais.Colonizar é um verbo que se garante no dicionário da história. Traz submissões e impede a autonomia.

Quem não se recorda do império inglês, das presenças da Espanha e de Portugal na América, dos norte-americanos fiscalizando o mundo? Os exemplos se estendem pelos tempos. Vale, também, a hipocrisia. Muitos justificavam suas dominações em nome da civilização culta contra os comportamentos selvagens dos bárbaros. Alguns saberes construídos, no século XIX, visavam consolidar teorias racistas. O nazismo não surgiu à toa, por obra da mente vingativa de Hitler.Portanto, alertar para o que se esconde atrás das máscaras não é duvidar da paz, nem negar o empenho das revoltas, mas apostar em seus desdobramentos saudáveis. Manter o olhar crítico e  esclarecer sobre as dissonâncias das culturas são deslocamentos que evitam enganos políticos. Quem foi colonizado sente o peso histórico de não ter voz. Reinventa-se.

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