O jogo da imitação: a vida e o controle

É difícil pensar que existem fatalidades e destinos. Sou muito desconfiado com as determinações e tenho simpatias com o acaso. A vida corre com uma agilidade desgovernante. Tudo se mistura. Um dia, chega a tristeza, outro, chega o afeto aconchegante. A imprevisibilidade nos acompanha, apesar de todos os mecanismos científicos. Não faltam academias para reflexão, nem tampouco intelectuais apaixonados pela combinação de palavras e números. O novo aparece, mas as repetições se sucedem. Como sintetizar tantas diferenças?

Assistiu ao filme que julguei envolvente: O Jogo da Imitação. Ele não evitou mascarar os limites e os sofrimentos humanos. Denunciou e compreendeu. Dialogou com o público, retomou memórias, desenhou histórias fundamentais entrelaçadas com o contemporâneo. Alan Turing, na sua solidão, inventou uma máquina que traz mudanças frequentes. Balançou os mandamentos da guerra, criou cenários inesperados e tormentos políticos permanentes. Foi perseguido, conviveu com amarguras radicais, envolveu-se com patologias ambíguas. Entregou-se aos trapézios desamparados.

Além de revelar a sagacidade de Alan, o filme debate e mostra os preconceitos. O pior é que esses preconceitos não se foram das culturas, marcam relações e destroem possibilidades de derrubar contradições e violências. Na história, o novo e o velho se associam com uma complexidade indiscutível. As dissonâncias podem produzir um bela sinfonia ou traduzir tragédias e descompassos. Estamos soltos no meio de profecias, carregando a necessidade de formular verdades, porém dominados por frustrações. Nunca abandonamos os planos de fuga, observando que há pesadelos e delírios perversos.

Nem tudo está resumido numa única imagem de um espelho onipotente. O mundo não se cansa de agitar promessas e atiçar utopias. Lembro-me de Freud. As suas ideias chocaram a época que viveu. Desfez mitos, rasgou fantasias ou as colocou nos seus lugares mais provocantes. Desnaturalizou valores, brigou com crenças, sentiu o pessimismo  e agressividade que desenham mal-estar. A felicidade termina sendo um equilíbrio passageiro e o amor escala montanhas para firmar sobrevivências sufocantes. O existir lança projetos e admite tropeços, intimida ânimos.

Alan arquitetou movimentos ousados na forma de pensar. Estão aí os computadores, as telas ditas milagrosas, as mensagens rápidas que refazem o cotidiano. As máquinas tumultuam e facilitam a vida humana. As bombas explodem, as televisões configuram comportamentos, o celular toca sinais. Imitamos os outros, queremos consumir modas ou as máquinas comandam nossas espertezas? Por onde andam os afetos e os perdões? É preciso não acumular vinganças e não esquecer que os sentimentos flutuam, como pássaros migrantes.Há muitos esconderijos nas interpretações das histórias.

Não há como contar detalhes, nem arrumar aventuras, sem obscurecer os vazios do passado. Os saberes não sustentam verdades que assumam a direção do tempo. Os poderes substituem autonomias, controlam transgressões. A imaginação não consegue voar, sem a ameaça de forças do inconsciente. Freud leu a convivência humana, assustou-se com suas pulsões, não negou a gramáticas nebulosas. As aprendizagens surgem nas esquinas mais escuras, não esgotam as dúvidas e as sutilezas das culpas e dos pecados. Alan encerrou-se na solidão de um Narciso.

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2 Comments »

 
  • Valerio Carvalho disse:

    Antônio,

    o próprio acaso pode ser entendido como um sub-conjunto
    do destino, tudo é uma questão de ponto de vista.

    até breve

  • Valério
    As interpretações variam, nada está fixado. Concordo, somos seres históricos.
    abs
    antonio

 

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