O jogo do desejo e a vida se sacudindo no mundo

O que desejam de mim? É uma pergunta que não sai da vida. Pensar o mundo, sem o outro, é um impasse. A construção do social acompanha cada passo. Não adianta se esconder, nem viajar para uma interioridade inatingível. Ela não existe. Somos vulneráveis, mesmo que as fragilidades não nos carreguem sempre para os abismos. Seguir adiante é a palavra de ordem do tempo. A resistência se concretizar em alguns atos, porém , às vezes, se desmorona e voltamos para o cenário das trocas. Quem gosta de desconversar, termina se apagando no seu próprio espelho.

O desejo é poderoso. Suas ligações com o inconsciente o tornam atuante. O desejo surpreende e puxa sentimentos. Não dá para esperar compensações absolutas, pois tudo pode naufragar num oceano que parece desconhecido. Olhar para o passado, em busca de redenção, de paraísos perdidos, é uma ilusão. Freud insistiu no mal-estar. Prometeu já havia se insubordinado e Ulisses fabricou astúcias. Não é de hoje a insatisfação. Os mundo se encontram, porque os tempos dialogam e vencem suas estranhezas. Falamos nas descontinuidades, faz parte da pós-modernidade criá-las, embora haja tantas coincidências e encontros.

Muitas vezes,o que aparece como luz, nem consegue iluminar. É um artifício. Portanto,a atenção para os desenhos das máscaras é um sinal para decifrar até onde  chega o mal-estar. É possível administrá-lo, mas é impossível eliminá-lo. Por isso, a sociedade do espetáculo, com suas falácias, se esforça para vender a felicidade como um bem de todos momentos. É a mercadoria de  maior  consumo. Garante sucesso, saúde e conforto. No entanto, a euforia tem gosto amargo de ressaca, quando passa o engano e a frustração desadormece.

É feito aquele título de campeão comemorado com antecipação. O vinho escorre, antes do dia. O mal-estar não configura, apenas, as aventuras do agora.Ele se adensa com a modernidade. O individualismo quebra o ritmo da comunidade e cria sinfonias dissonantes. Sua angústia cresce, pois não se pode negar a sociabilidade. Ninguém quer testemunhar o fim da história. O mitos , de ontem, celebram ansiedades  que não se acabaram. A tecnologia promete, contudo, também não escapa dos fracassos. O vaivém não admite sossego, nem verdades permanentes.

Quando a sociedade se enche de festas, quando as portas do consumo se abrem, é preciso desconfiança. Há exageros, sempre traçados por números. Pede-se quantidade, recebe-se inquietação. Daí, a invenção das drogas e das suas sofisticações. Ninguém quer se conciliar com a incompletude. Prefere acreditar no pecado original. A falências das utopias é um sinal. Existem espaços para retomar outras idéias de paraíso.É um jogo. Diverte, porém provoca insônias.

Desfiar o tempo, só com a melodia da experiência. A barbárie tem seu lugar, mesmo que a geometria do progresso se fixe. As palavras mudam de significados. A anemia não faz parte das suas histórias. Possuem veias e sangue. Com elas, construímos a crítica e não nos desfazemos da poesia. A objetividade da técnica não afirmou o discurso de Descartes como único. O mundo se sacode, ainda bem. Quem fechou os olhos para rebeldia não ganhou o jogo, nem sepultou o desejo.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Corajoso você, Antonio, começar perguntando (essa pergunta que não sai da vida): “o que desejam de mim?”
    Vamos então responder a Rezende e estender esse desejo aos que não perderam o “estado da palavra”. Esperamos de você(s), que continuem ampliando, cada vez mais, o poder da crítica profética, ou seja, a crítica que desperta, no outro, a capacidade de denunciar, que gera indignação, mas ao mesmo tempo, a que anuncia a esperança, aprofunda a vontade de se juntar a outros e subverter o que parecia inalterável, que alarga o desejo de partilhar possibilidades mais amplas, que mobiliza à solidariedade, que encoraja a “desfiar o tempo com a melodia da experiência”.
    Que os seus leitores possam crescer, dar passos maiores, “sentir uma transformação pesável”, sem perder a ternura e sentindo “que estão sempre mudando” .
    Desejamos de você(s) que continuem nos ensinando, em meio ao sacolejo do mundo, a nos aproximar da poesia, a “não fechar os olhos para a rebeldia”, a “não sepultar o desejo”, e a jogarmos o jogo da vida com firmeza e com leveza, sabendo que não se ganha sozinho, que “não se pensa o mundo sem o outro”!
    É isso tudo Antônio, e um pouco mais, que desejamos de você(s). Afinal como advertiu Calvino “ os leitores são os meus vampiros”. Quem manda ter sangue bom!!!!!!!!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    O desejo é o desafio da pedagogia da vida. Mostra os modos da incompletude. E nós não seguimos sem ele. Grato pelas sugestões.
    abs
    antonio paulo

 

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