O jogo do tempo e as acrobacias do múltiplo

Pelé tem um hábito interessante. Sempre diz que ele não é um só. Divide-se em dois. O Edson Arantes, cidadão comum, e o Pelé, o mito, o atleta do encanto. Desafiante, entender o limite de cada um. Muitos o criticam e ele usa esses argumento para se defender. Como jogador foi um gênio, improvisava e provocava delírio. Mas Edson possui suas falhas, não está insento de cometer seus pecados. Também anda pela ruas dos homens que se repetem, sem transcendência. Pelé anuncia seu múltiplo e as distâncias que existem dentro do seu próprio eu.

Muitos se escondem e negam seus escorregões. De que adianta, se as surpresas nos deixam sem ação e as mentiras nos desviam, às vezes, de certos descompassos? James Joyce escreveu um romance fabuloso, base do modernismo. Quantos estudos já foram construídos para buscar uma trilha que ajude a comprendê-lo? Não é fácil. Ulisses permanece como referência e Joyce atiçando a mente dos acadêmicos. Ele tinha seus comportamentos singulares, mas mergulhava, no cotidiano, em mares turbulentos, porém nada criativos. Tornou-se, pelos seus escritos, um autor fundamental para renovação da linguagem.

Lembram-se das pinturas de Dali. Onde ia arquitetar tantas fantasias? Quebra paradigmas, traz o sonho, extasia. No entanto, o que falar de outras travessuras da sua vida, suas adesões políticas, suas excentricidades? Muitos morrem sem conseguir atingir a mínima dignidade merecida. Depois, são celebrados, passam a ser modelos inesquecíveis. O impacto que teve os impressionistas, na época das suas mais famosas criações ? Suas obras feria os bons modos clássicos. Na atualidade, só elogios e perplexidades.

Os exemplos não são poucos na arte. No futebol, nem se conta. Garrincha pintava o sete, era mais que surrealista. Teve uma vida sofrida, cheia de descontroles, nas suas aventuras e nos seus amores. O deputado Romário é outra figura contemporânea que aguça  interpretações. Entrou na política, com votação marcante. Fez muitos gols e gostava de abalar a sociedade com suas declarações. Ficou famoso a sua frase que dizia que Pelé calado era um poeta. Balançava a imprensa com notícias de sua vida privada.

Na época em que vivemos, as sortes e os azares ocorrem numa velocidade incrível. Obama ganhou espaço em 2009, parecia o profeta do novo tempo. Amarga, agora, as energias dos desacertos e o mundo já não o contempla com esperança. Ídolos surgem e desaparecem num fechar de olhos. Qual é mesmo o critério da admiração? Os Beatles entusiasmam ainda gerações. O grupo atingiu seu auge nos anos 1960. Eram transgressores, incomodavam as tradições. Alguns os condenavam pela arrogância e pretensão.

As relações sociais não vivem sem a vitrine. A exibição faz parte de um tempo que exige virtudes aparentes que tenham valor de troca. Não se trata de exaltações à ética ou a um saber religioso. As expectativas são outras e a mistura fermenta as opiniões. Julian Assange ocupa manchetes. As atrizes de Passione destacam-se na mídia. Sílvio Santos sente seu império desmoronar. Não há medida, nem força para impedir os desperdícios e os desencantos. A vida é mesmo o lugar das acrobacias.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Belo texto Antônio,
    Os grandes acrobatas da vida souberam anunciar o seu múltiplo por meio de um fazer cotidiano simples, sem vitrines… Acreditando, quem sabe (?), que “em um minuto pode se viver uma vida”… Ou desfazendo os fios da rede (como Penélope à espera de Ulisses), para esticar o tempo e não entregar aos outros a construção do seu próprio destino.
    Viver não é uma tarefa fácil, mas é certamente recompensadora!!!
    Abs
    Flávia

  • Flávia

    A vida tem um traçado. Difícil é conhecer os fios desse traçado.
    abs
    antonio

 

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