O jogo e a arte: estratégias e invenções da vida

Marcel Duchamp tinha ironia e sensibilidade extraordinárias. Não se escondeu dos desafios do seu tempo. Era companheiro das ousadias da arte. Aconchegava-se, nas vanguardas, e fazia crítica à mediocridade. Seguia a trilha de artistas que encantaram e encantam o mundo como Picasso, Dali, Klee, Magritte, Kafka, Debussy e tantos outros. Eles sentiram que a cultura mudava e revolucionaram as  linguagens, sem timidez e com coragem.

Duchamp faleceu em 1968. É difícil limitá-lo a rótulos. Alguns o anunciam como iniciador do pós-modernismo. Outros o consideram o artista mais influente do século XX. Foi um radical nas suas propostas e nas suas obras. Percebeu como a sociedade se deixava levar pela técnica. Não usou da clareza nas suas provocações. Brincava com inteligência. Formulava  interrogações que permanecem instigando a contemporaneidade.

O retrato acima traz uma  das astúcias de Duchamp: jogar xadrez com uma dama em plena nudez. Onde estão a concentração e o foco? A distração diverte e cria? O linear não derruba a vontade de transgredir e quebrar a ordem? As respostas são muitas, se é que elas existem ! O silêncio penetra na sabedoria, com mais firmeza, do que os ruídos dos negócios ambiciosos.

A capacidade de desfazer e refazer é humana. Nunca se ausentou da história. Os exemplos  são quase infinitos. Cervantes escreveu D.Quixote e, ainda hoje, recebe elogios indiscutíveis. Descartes rompeu com as tradições filosóficas e suas polêmicas continuam arranhando  intelectuais. Bach compunha com se estivesse construindo geometrias. Joyce desacomodou, com seu Ulisses, a escrita e influenciou todo modernismo.

A cultura é mesmo uma resposta à incompletude. Somos seus ativos arquitetos no mais simples ato cotidiano. Seus jogos estão além das imagens de um quebra-cabeça. Não há como limitar as controvérsias entre os tempos. Acreditar em hierarquias progressivas, consolida acanhamentos. Tudo se toca, se mistura. A invenção não se restringe à arte ou talvez a vida seja a própria arte, a sua sombra mais pertinente.

Não aquietar preconceitos deveria ser nossa senha de acesso ao mundo. Nos territórios da cultura, a invenção não cessa. A luta pela sobrevivência administrando recursos mínimos, os conflitos constantes para conseguir  emprego, o desejo de ultrapassar as certezas e buscar as novidades, são impulsos que nos chamam para  descobertas e  artimanhas.

No futebol, são insquecíveis as improvisações de Garrincha, o olhar atento de Tostão nas jogadas com Pelé, as cobranças de falta de Zico, as idas e as vindas do polêmico Maradona, as defesas fantásticas de Gilmar, a inteligência de Zito na armação do famoso Santos dos anos 1960. O futebol ativa o desejo de ir adiante. Observar a cultura acende luzes e destrói medos.

Sempre me lembro das músicas da Piazzolla. Não se curvou às tradições. Tornou-se um ícone, por não ser escravo da obediência. Foi destratado, duramente, no seu próprio pais. Retomou o tango, o fez dialogar com o jazz e com outras melodias do mundo. Astor Piazzolla possui um lugar especial entre os compositores da atualidade. Não fugiu das estratégias da criação.

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