O jogo é o trapézio da vida

 

Perder  é chato e pode deprimir. Ganhar, sempre, provoca arrogância e estimula vaidade. Empatar é não conseguir atravessar as encruzilhadas, dançar nas inércias. O jogo é humano, invenção cultural com inúmeras histórias. É síntese de desejos e aventuras. Resume tempos. Distrai e controla. É um capitulo da pedagogia e dialoga com a multiplicidade.  Há quem deteste futebol e se deleite com um xadrez silencioso. Outros preferem o dominó e gozam com os parceiros mais assíduos. E as cartas com seus desenhos sedutores? Fazem perder fortunas e amores. Portanto, as regras dos jogos não tiram suas espertezas, nem ousadias. Existem espaços para peripécias e divertimentos sem fim.

É um teste de preparação para experiências e sabedorias. Há os individualistas concentrados. Não piscam , nem arranham. Uma partida de tênis exige esforço redobrado. Atrai elites e seus adeptos possuem charmes cantados pelas revistas e Tvs. Há jogadores,com habilidades inimitáveis, na defesa. Não conseguem ser agressivos. Vivem o sentimento da salvação, temem ofender os outros e se resguardam. No entanto, a lembrança de Garrincha sempre atiça magias e brincadeiras e a dos atletas  corredores, velocidade para ganhar instantes preciosos.

O jogo transforma apatias e desfaz flexibilidades. Muitos se entregam a uma disciplina rígida, quando se envolvem com as Olimpíadas. A emoção é contida e a obsessão, pelo sucesso, estende-se de forma profunda. Depois, as comemorações abrem corações e ultrapassam tristezas. O jogo se mistura com o inesquecível, treina a memória, sacode os músculos ou esquenta a cabeça. Nem sempre agita. Liga-se, também, à paciência e à plasticidade dos ritmos. Não é escravo das tensões do corpo. Navega por oceanos, ruas, estádios, mesas de bar, sofás requintados. Não há lugares definidos, porque a cultura não se cansa de cutucar a imaginação. Preguiças e ânimos se encontram, em qualquer banco de praça, para celebrar os símbolos de cada jogo.

Há longos períodos de derrotas e frustrações. O Santa Cruz vem de travessias esburacadas. Parece ressuscitar. Fez outro pacto com a esperança. Pelé teve seus momentos de astral avariado. Quem não se recorda da Copa de 1962? Neymar é estrela de brilho recente. Mas há gente de horas passadas que se instalam, nos diários da vida, e permanecem. Não dá para desprezar as jogadas de Zico, Didi, Nilton Santos, Maria Esther Bueno e as lutas marcantes de Éder Jofre. E as famosas ligas de dominó, pontos de sociabilidades indispensáveis e inícios de práticas de resistências aos desmandos dos poderosos do momento? As peladas do sábado afugentam os descompassos da semana e exercitam o machismo. Duvidam?

O jogo é espetáculo. Inspira, organiza, transcende. O mundo dos negócios não se descuida de tratá-lo com atenção voraz. Há lucros, investimentos, viagens internacionais, choques de interesses, frequentes. Quem escapa às estratégias do capital e aos perfumes da mídia?  Porém, o jogo é muita coisa, não pode ser dependente de tostões ou euros fortalecidos. Quem está na vida, joga sem descanso. Os sentimentos, as profissões, as relações de poder se assemelham a jogos instigantes. Há teorias e hermenêuticas para decifrar seus encantos e tormentos. Balancem-se. O trapézio é uma metáfora.

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4 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Professor,

    O jogo tem ritmo. Joga-se lento e também rápido. O jogo tem rima certa, mas nem sempre acerta. O jogo tem melodia,mas nem sempre seu canto, encanta. O jogo tem solidão,mas também companhia e multidão. O jogo tem coração pulsante, mas que pode parar a qualquer instante. O jogo tem uma porção de melancolia e outra de alegria. O jogo tem alvoroço e calmaria.

    O jogo nos ensina que a vida é cheia de surpresas.

  • Rosário

    Gostei do ritmo que deu ao jogo.Há palavras que possuem força e se espalham pelo mundo. Você sabe bem disso.
    abraço
    antonio apilo

  • Monique disse:

    A vida é um jogo irresistível…
    Jogo de interesses; de surpresas;de perdas; de ganhos;de felicidade de tristeza;de glórias e derrotas….o vai- e-vém de uns dias eternos de efêmeros..
    O que pode ser valorizado, então é o “Carpe Diem”, pois, talvez amanhã a lua te procure em vão, já diria Omar khayyam!

    Belo texto,Antonio.
    Abraços!

  • Monique

    Grato. Gostei muito também do seu comentário. O vaivém da vida nos deixa tontos.
    abraços
    antonio paulo

 

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