O jogo refaz a brincadeira e atiça a astúcia

Se cada dia retomasse o outro, integralmente, o mundo se despovoaria. Temos que tocar no que passou, recorrer às lembranças. E as experiências que atravessam as circunstâncias e o movimento dos desejos ? O vaivém é comum. Mostra que as identidades são construídas. Nada de cimentá-las. Há sempre espaços para ensaiar ousadias e redesenhar antigas imagens.

Por isso, a invenção da cultura é ânimo. As desmontagens acontecem e fermentam dúvidas, porém os artifícios são muitos e impedem a unicidade da monotonia. O jogo traz a multiplicação das pedagogias e dos divertimentos. Mudam, com o passar do tempo. Adaptam-se aos costumes e fundam hábitos renovadores. Alguns exigem concentração, outros ruídos. Temos as ações coletivas e as individuais, a simplificidade das regras mais conhecidas e sofisticações trazidas pela informatização da vida.

O jogo acompanha a cultura, não se nega a entrar nas suas astúcias, nem a fugir das suas brincadeiras. Jogos de rua se tornam jogos de salão. A inocência do riso solto é revirada pelo cálculo da grana. Há lugares especiais para se apostar. A sorte e o azar continuam zelando pelas suas identidades. Muitas vezes,  a seriedade domina o movimento dos parceiros, as expectativas de perdas geram tensões. A brincadeira sofre metamorfoses. Fortunas são diluídas, mas as regras são obedecidas e o fracasso arranha a loucura.

O ritmo não é estático, nem homogêneo. Atinge os esportes públicos e com também ao mais íntimo carteado. Há luzes e sombras. Olhos curiosos e raciocínios velozes. O vôlei dos anos de 1960 não se compara com os dos  tempos atuais. O futebol tem passado por reviravoltas incríveis. Os saberes técnicos influenciam na estratégias . Preparações, segredos, educação física,  médicos especializados. Aquela diversão, antes comum nos campos de várzea, ganhou outra estrutura.

A rua agita-se com o comércio e o fluir das motos e automóveis. Casas foram substituídas por edifícios gigantescos. Desconhecemos nossos vizinhos. O recolhimento é cotidiano e muda os rumos da brincadeira. A televisão aumenta sua soberania, prometendo alegrias e lágrimas, sem esforços, consagrando a fantasia pouco crítica. Há de tudo, para garantir audiência e passividade. Em vez de jogar, vemos os outros jogarem e somos parceiros indiretos.

É claro que a cultura não poderia adormecer. Os significados merecem releituras e a emoção se debruça sobre outras paisagens interiores. Não se trata, aqui, de uma condenação, porém de uma insistência. Traçar as diferenças entre os momentos, sem querer firmar hierarquias é importante. Entender as trocas e as singularidades deixam a vida mais rica de autonomia. Não podemos fugir das escolhas, portanto conhecer as histórias das relações sociais ajuda a desobstruir as trilhas.

O diálogo entre as permanências e as novidades testemunham vontades de refazer ou manter certos comportamentos. Nem tudo pertence a ansiedades de se lançar, cegamente, no futuro, nem tampouco mergulhar de volta ao passado. O equilíbrio é um desafio, pois a instabilidade arma  suas assombrações. O humano não dispensa sua identidade trágica. Busca, porém, fôlegos. Nos jogos e nas bricandeiras moram encantos. Porque não encontrá-los, sem disfarces?

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2 Comments »

 
  • Juliana disse:

    Boa noite Antonio, adorei o texto e fiquei encantada com o quadro. Ele tem um colorido lindo. De quem é ?

    Parabéns pelo blog, é excelente!

  • Juliana

    Passei um tempo fora. Grato pelos elogios. Vou pesquisar sobre o quadro e te aviso. Estou retomando o blog.
    um abraço
    antonio paulo

 

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