O labirinto e a porta entreaberta da história

Imaginar a história, numa representação arquitetônica, nos traz a configuração do labirinto, com suas sinuosidades e surpresas, suas portas entreabertas, sem chaves ou segredos, mas com paredes de cores diferentes e espelhos com formas inusitadas. Não é à toa que inventamos a geometria e a matemática, os significados e as linguagens. O inesperado é o soberano na cartografia do labirinto. Ele abraça todas as cidade invisíveis de Italo Calvino e lembra a solidão fantasiosa de Macondo. A história é lugar  privilegiado dos primeiros poetas. Foram eles que deixaram na memória os sinais dos primeiros paraísos e fertilizaram as utopias buliçosas de Prometeu. Por isso, a história é o grande encontro com incompletude.

Contar/narrar as histórias é ofício de todos. Ninguém foge das aventuras cotidianas, mesmo que elas sejam povoadas de decepções e amarguras. Quem sabe se no outro dia, o sonho submeta o pesadelo,  e  a luz consiga dialogar com as sombras? Navegamos num oceano cheio de limites, de águas turbulentas, com azuis desbotadas, mas nunca estamos distantes das transgressões. O pecado original só se sustenta na fala do papa. Tudo é uma questão de escolha, de negociação, dum olhar mais contemplativo ou mais agoniado. Não se esconda, nem se banhe na apatia. Navegue, mesmo que  rumo seja desconhecido. Reinaugure, sempre, suas astúcias.

Narrando a história narramos o que vivemos. Ela é o presente em permanente diálogo com o passado e com o futuro. O tempo existe para ser dito e remontado como jogo de lego, nas mãos de um malabarista de um circo sem plateia. Estamos cercados de desejos, fantasias e como  Beatriz achamos que para sempre é sempre por triz. Não temos raízes, porém as buscamos. Como viver a vida sem referências, mesmo que haja tantos descolamento e o efêmero sintetize a modernidade de Baudelaire, junto com as conjugações do eterno? Os humanos respiram as vaidades dos deuses que inventaram para construir uma pausa nos desencantos da incompletude.

Portanto, nada mais complexo, nem mais solto do que contar uma história. As lacunas não se ausentam das narrativas. As certezas do método passam, são artimanhas das conspirações, entre saber e poder são premiadas nos concursos das revistas pontuadas no Curriculum Lattes. Não estamos livres das dúvidas. Elas acendem a renovação, traçam as pontes precárias do mal estar na cultura, fazem Freud fumar seus charutos, apesar dos incômodos da sua doença fatal. Ele percebeu que o desamor não cessava e a tecnologia servia para acelerar a morte e sofisticar o suplício.

Freud terminou desiludido, atormentado pelas lembranças pessimistas de Schopenhauer. Não conseguiu entender porque os labirintos possuem tantas encruzilhadas, a cultura tantos escorregões. Ainda não podia conhecer as especulações de Castoriadis sobre o imaginário.Observe que a verdade é curva e que o historiador já foi , muitas vezes, chamado de mentiroso. Basta ler os escritos de Nietzsche que, hoje, iluminam as reflexões ditas pós-modernas, inclusive as foucaultianas. Não renegue seu poder de crítica, transcendendo o que lhe foi dado com definitivo. Desinvente o pesadelo que nega a existência do amanhã.

PS. Parte do texto apresentando no seminário Cultura e Memória, na UFPE, no dia 29 de 09 de 2011. A outra parte será postada no sábado, dia 1 de 10. Hoje, por mal uso da máquina, terminou saindo dois textos, estou fazendo agora, 16,18, a retificação, deixando texto que havia programado.

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2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Em busca de conhecimentos vorazes, perplexos e instigantes me vejo como um ser dotado de poder. Esse poder é de sabedoria e de soluções ao qual procuro sorrateiramente difundir em meio ao caos. Os poetas modernistas que se sintam em minha pele, pois o gosto de saber e de falar sobre um mundo que margeia a erudição da vida.

    Falam que o poeta em seus versos escreve aquilo ao qual o homem não quer dizer com a verdade. Ele mascara a realidade que encontramos em diferentes proposições do cotidiano humano. E é através das suas transgressões que são carregados, em seu arcabouço, os rompimentos da história com suas próprias narrativas.

    A complexidade das incertezas e das narrativas que transitam nos fatos históricos nos coloca numa posição de observantes e analisadores para atentarmos nos projetos humanos que são alicerçados desde a construção do homem em sociedade. As culturas que bem digam, na atualidade são milhares que compõem seu quadro de pensamentos e ideologias âmbito social. Há aqueles que ousam quebrar suas barreiras e paradigmas, incrementando nesse complexo, idéias inovadoras, ou mesmo, renegando as naturezas desenhadas em torno de seus imaginários.

    Abs professor

  • Emanoel

    As culturas ganham complexidade. É preciso saber a dimensão de cada escolha , para não deixar de construir caminhos.
    abs
    antonio

 

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