O lugar do outro, sem espelhos e preconceitos

 

Somos animais sociais. Alguém duvida? Os outros nos trazem alimentos culturais e nos ensinam a voar como os pássaros. Dividem as fantasias e desenham as máscaras. Não dá para encarar a solidão de Narciso e mergulhar em qualquer lago. As águas estão turbulentas ou poluídas. O Olimpo abandonou o concreto do mundo e se refaz na imaginação. Como viver sem contemplar as aventuras dos mitos? A vida é travessia e travessura. As inversões vestem abismos e salvam monotonias. Do ponto de vista da coruja, do morcego, do boêmio e do ladrão, o crespúsculo é a hora do café da manhã (Eduardo Galeano). As assombrações circulam, pedem conversas íntimas. Os sustos instituem culturas, retomam imaginações criativas, desintegram conjuntos vazios.

Nos caminhos do Ocidente, as pretensões etnocentristas significam sobrevivências, vaidades, imperialismos. Os gregos sabiam disso. Gostavam de chamar seus vizinhos de bárbaros. Os romanos criaram direitos especiais para os colonizados. A sociabilidade faz a história se jogar no inesperado, porém os espelhos, nem sempre, produzem imagens agradáveis. Os rostos próximos podem não seduzir e o afeto ser efêmero. Tudo possui seu lugar e seu tempo. A pedagogia não é o território do silêncio. Fabrica desejos e estimula projetos. Até onde os pontos finais serão traçados e o medo compreendido, é uma outra história ? Os enredos e as mentiras duelam com as certezas e as verdades, sem aprisionar o lúdico, nem estragar a escuridão que adormeceu o desamparo. A ambiguidade não tem gosto de remédio amargo. É a vida, saltando, na periferia do circo sem lona.

Os preconceitos balançam. Não são trapézios. Não divertem. São ferramentas cortantes. Rasgam corpos. A ciência não os anulou. Muitas vezes, deu suporte a genocídios. Justificou opressões e  campos de extermínio. Inventou hierarquias nas cores e nos sexos, com ajuda de religiões poderosas, inseridas nas traições à generosidade. Preta Gil chora sua dor, diante das provocações de um deputado, Bolsonaro, despido de qualquer ornamento de cidadania. Ele não consegue distinguir sentimentos. E nos faz pensar: Quem são os carcereiros, quem são os cativos? Podia-se dizer  que de algum modo, todos nós estamos presos (Eduardo Galeano). A indignação mínima exige deslocamentos e ousadias. Ouça Roda-viva de Chico Buarque ou Adiós Nonino de Piazzola. Sacodem a sensibilidade. Quem embarcou, sem críticas, no projeto da modernidade, sofreu desenganos. Por isso, a lógica da suspeita merece permanência.

Há intenções de liberdade, planejamentos para expansão dos direitos. Ninguém apaga os desejos utópicos. Muitas relações sociais arquitetam-se, testemunhando  recusas. Isso é um dos sinais. Há, contudo, responsáveis, pelo dinheiro público, que transformam merenda escolar em bebida de elite. Veja o que aconteceu em Alagoas. A culpa envolve corações uniformes ? O fluxo da autonomia é interrompido, pois  hierarquias consolidam privilégios.Os exemplos de civilizações ganham livros de história. A figura do outro está sempre presente. A Europa se considerou, por muito tempo, o centro do mundo. Hoje, sente-se ameaçada. As circunstâncias econômicas e as memórias de conflitos não sossegam. Onde os totalitarismos se construíram e as grandes guerras mataram milhões?  Cadê os limites? Nos espelhos quebrados de molduras de plástico?

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6 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, muito lindo e profundo perceber a vida enquanto “travessia e travessura”, mas, ao mesmo tempo, estar sempre vigilante para reconhecer quando ela salta “na periferia do circo sem lona”.
    Tanto a “lógica da suspeita” quanto “os desejos utópicos” merecem permanências!
    Importante é estar atento aos sinais, que nem sempre estão na superfície, e sim, nas águas subterrâneas da nossa sociabilidade.
    Grata pela reflexão, Antonio.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    O outro é um vínculo cultural e afetivo. Assim, podemos sonhar coletivamente e fortalecer as utopias.
    bjs
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    Não só somos animais sociais, como também somos resultado do meio social em que vivemos. Não nascemos loucos nem tampouco heróis. Estamos em constante evolução para o melhor ou para o pior na vida. A sociedade cria seus monstros e depois não entende o por que de tanta violência; cria seus modelos e não sabe por que o conceito de família está se desmonronando, por que as crianças estão cada vez mais se prostituindo e por que a juventude vem se perdendo a cada dia pelos mais variados motivos.As instituições, de sua parte, criam leis (Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto do Idoso)que são verdadeiras cartilhas de direitos eivadas de deveres e de limites. Para Psicologia, a não-formação do superego é o que justifica e explica o surgimento dessa sociedade transviada ainda em sua meninice. Para Hobbes, a resposta está na máxima “o homem é um Deus para o homem… o homem é lobo do homem”.
    Estmos em meio a uma discussão sem fim. E o preconceito, em meio atudo isso, permanece, ainda que dilacerando corpos, seja porque a nossa indignação é, como diz a música, “uma mosca sem asas, não ultrapassa as janelas de nossas casas” (Skank), seja porque nossa ousadia está muito longe de ser o “sapere aude” kantiano.

  • Christiane

    Você sintetizou bem as contradições que enfrentamos. Não há como apagá-las, de repente, pois se inserem em tradições e hábtios cotidianos. As discussões ajudam a compreender certas coisas. Mas as dúvidas são constantes.
    Grato pela contribuição.
    abraço

  • Christiane Nogueira disse:

    Professor, só para corregir:

    As instituições, de sua parte, criam leis (Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto do Idoso)que são verdadeiras cartilhas de direitos CEIFADAS de deveres e de limites.

  • Christiane

    As instituições podem ser uma abertura para liberdade, mas também uma manutenção de ordens opressivas. Depende de quem a governa e das estratégias. Se fica só no limite do poder, se compromote, apenas, com o que limita.
    abs
    antonio paulo

 

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