O lugar dos sentimentos e das competições cotidianas

A sociedade cresce na sua diversidade. Difícil é avaliar se tudo isso é sinal de transformação ou se trata de uma maneira de manter, com disfarces, preconceitos e autoritarismos. O modo de produção capitalista não vive sem exercitar competições. Fala-se de igualdade, mas a prática mostra discriminações frequentes. Não dá para acreditar que a exploração seja banida de um mundo repleto de conflitos. Há muita sutileza na armação das estratégias políticas. Os discursos proclamam desenvolvimento e teses socializantes,  com interesses pragmáticos bem elaborados. Portanto, as dúvidas não cessam de inquietar quem pensa num futuro com dimensões solidárias.

A existência de um cotidiano marcado pela competição fragiliza tentativas de discutir se a história não pode seguir outros caminhos. Insiste-se na objetividade, na soberania dos dados estatísticos, na excelência das conquistas científicas. Não é possível negar que os saberes se multiplicaram. Há renovações importantes e espaços se abrem para reconfigurar as práticas sociais. No entanto, as relações de poder garantem centralização e privilégio, pouco dialogando com os sonhos democráticos. Tudo isso feito com muitas artimanhas e manipulações. Os investimentos, nos mecanismos de controle, são visíveis. Há disputas milionárias pela compra de canais de TVs. É uma ilusão afirmar a neutralidade, numa sociedade de grandes concorrências.

A forma de organizar a dominação se sofistica. Ninguém quer assumir, na política, o lugar de conservador. Poucos se firmam como tradicionalistas. Os elogios à democracia não cansam de aparecer na imprensa e no Congresso Nacional. Se ficarmos, apenas, no eco das palavras, o mistério perdura e engana. Nada melhor de que analisar a prática de quem enfatiza a liberdade e enaltece a transparência. Por detrás das ideias, escondem-se, muitas vezes, corrupções incríveis e descompromissos com a cidadania. A chamada vitrine tem vidros finos, desde que construamos um olhar agudo e crítico.O mercado das máscaras é rico e possui clientes astuciosos.

Não custa refletir sobre as relações que enfrentamos. Algumas se ausentam de instigar utopias e preferem consolidar as competições. Renegam os conteúdos mais analíticos. Desacreditam nas mudanças, naturalizam hierarquias. Se a sociedade se recolhe e deixa uma minoria costurar as tramas históricas, o lugar do sentimento se esvazia. Ele não pode aflorar, apenas, no momento do desconforto. Os sentimentos trazem o desenho das pontes de comunhão, desmancham armaduras, pois arquitetam impulsos que relativizam as apologias às razões frias. Não há evidências de verdades indiscutíveis no fazer social, porém existem comportamentos que aproximam e estreitam convivências.

Portanto, se escolhermos o mundo que nos cerca, as circunstâncias não prevalecerão inalteráveis. Temos exemplos. No entanto, não estamos livres de agressividades que se espalham pelos tempos históricos. As formas se redefinem, quando invertemos nossa relação com o mundo. Na Antiguidade, houve guerras que destruíram culturas. Hoje, as culturas continuam ameaçadas por confrontos em quase todas regiões do planeta  terra. Os radicalismos não sossegam. A pulsão de morte mantém sua força. Freud, quando escreveu O mal-estar na cultura, não estava tomado pelo delírio. Apontou questões que não desparecem e provocam dores e ressentimentos. O que representa a companhia do outro num mundo confuso e indefinido?

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2 Comments »

 
  • Thiago Augusto disse:

    Pois é, professor, me peguei pensando nisso também outro dia… Qual é o lugar dos sentimentos numa sociedade tão tecnicista? Valores como democracia, ética e solidariedade se tornaram tão fluidos nesses tempos de imediatismo! Usa-se o tempo todo essa bandeiras para se legitimar discursos demagogos em prol de interesses privados e/ou partidários, por exemplo. Na esfera do cidadão comum, por sua vez, observo um aparente sumiço da gentileza, seja no trânsito, na fila do supermercado… Que tempos são esses? Onde se quer chegar com tanto individualismo? Foi o capitalismo que nos fez assim ou esse sistema é uma face da nossa natureza vil?

  • Thiago

    O sentimento não morre, mas as condições do mundo atual tiram seu fôlego.
    abs
    antonio

 

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