O mal-estar persistente e misterioso

Cada época curte seus deslumbramentos e lamenta suas perdas. A busca do equilíbrio é um registro histórico inegável. Há quem se descuide, goste de viver os perigos dos extremos contínuos. Freud não deixou de alertar para as dificuldades que cercam o fazer humano. Esquecemos que as comparações ajudam, porém não respondem a todas as inquietudes das incertezas. As conquistas de Aristóteles têm suas especificidades. Não vamos, portanto, torná-las companheiras inseparáveis dos pensamentos de Kant ou de Rousseau. Quem trabalhou  no pique da Revolução Industrial não imagina as peripécias flutuantes do capitalismo financeiro. A adivinhação termina sendo uma grande brincadeira.

Contemplar o conhecido é um hábito. Os instantes correm, acumulam informações, oferecem alternativas, lembram desgovernos. Não há, contudo, como se desviar do passado. Ele nos compõe e nos acompanha. A velocidade do mundo contemporâneo não impede que as histórias sejam narradas. Temos que desenhar sentidos, articular experiências, suspender certezas. Na busca do equilíbrio, os prazeres ganham espaços, mas é preciso compreendê-los. O presente configura-se, selecionando momentos, refazendo conteúdos. Estamos longe de considerar a possibilidade de representar o passado tal como ele realmente aconteceu. Isso nos recorda os ensinamentos do século XIX, os delírios de uma ciência que se procurava.

As controvérsias da felicidade se interligam com as aventuras históricas. Podemos atiçar polêmicas. A história é a síntese da luta de classes ou ou uma estratégia, sempre, retomada para segurar sonhos e desejos? A persistência de projetos e amarguras sinaliza  que os fracassos são inevitáveis, no entanto nossa capacidade de invenção não adormece. As épocas se distinguem, exigem controles diferentes, temem ousadias criticadas. No meio das celebrações das alegrias, surgem desperdícios e desenganos. Não dá para esclarecer tantas perplexidades e considerar os mistério inúteis e descartáveis. Enfrentamos as misturas, para mantermos proximidades com as sabedorias. Pode ser uma ilusão?

Como administrar, justificar, aprisionar o efêmero que anuncia superações? Como entender que as narrativas colocam sentidos, mas também fogem de encontros comuns e frequentes? As emoções não excluem as andanças dos raciocínios e das objetividades. Não dá para firmar datas de origens, mas localizar indícios, visualizar sentimentos tontos que formam o mal-estar da cultura. É ingênuo embarcar numa felicidade contínua e inexpugnável, negar a incompletude com os encantos das redenções políticas e religiosas. A vida não se faz sem desertos, mesmo que os objetos povoem nossas moradia com distrações. A subjetividade é complexa, pede recolhimentos.

Nomeamos cada tempo que vivemos como um ato de astúcia. As coisas sem nome nos incomodam. As palavras respiram, movem a cultura, pois a linguagem marca as sociabilidades. A modernidade trouxe planejamentos revolucionários, mas naufragou na realização de muita coisa. Ela perdura. As épocas históricas não se extinguem de vez.  Quantas práticas escravistas ainda exercitam explorações desmedidas? Os amores românticos não acendem corações apesar das friezas tecnológicas? Tudo tem o perfume do paradoxal. As perguntas não cessam, nem tampouco as desconfianças. Os dogmas reaparecem com outras vestes. O equilíbrio instável, contraditório, assanha as teoria sobre a felicidade. O mal-estar é andarilho. Funda suas trilhas, modernas ou pós-modernas.

PS: Por motivo de viagem, manterei o mesmo texto no sábado e no domingo.

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