O medo do gol, a multidão sem fôlego, o desejo aflito

As histórias do futebol não deixam de rondar as nossas vidas. São exemplos de como as dificuldades estão em toda parte. Não há fórmulas certas.  Seus contrapontos viajam, pelo mundo, sem encontrar portos seguros. Por isso, prognósticos se esfarelam, diante do que aparecia óbvio. Gosto do Santa Cruz, paixão antiga, e fico contemplando a sua saga. Quanto mais sofrimentos, mais multidões em busca de saídas, acreditando no delírio! O clube das três levou mais de 40 mil pessoas ao Arrudão. Sua torcida não se localiza nas chamadas camadas superiores da sociedade. A maioria faz sacrifício para ver seus ídolos e apostar na redenção. Há outra saída?

Quem nunca foi a um estádio de futebol imagine a população de uma cidade ocupando seus lugares. Tudo com muita animação e sinais de vitória. Isso é começo da história. É um drama curto, com poucas cenas de comédia, sem  deixar de circular o otimismo. O sonho é o gol, para assanhar espetáculo. O tempo passa e a emoção permanece acesa. A alegria conversa com a dúvida, a decepção desfaz as glórias do passado e as possibilidades do futuro. Prometeu seria, com certeza, um torcedor símbolo do Santa, não temeria as maldições de Zeus, o poderoso, com amplas sintonias com o Flamengo ou mesmo com o Sport.É perigoso mexer com os mitos, mais ainda com os crentes dos outros times.

Cores diferentes, bandeiras nunca quietas e vontade de soltar a leveza. Nem tudo tem um caminho traçado. Jogo é jogo, possui regras e deuses, porém esquenta o fôlego, na tristeza e na exaltação. O Santa não consegue ir adiante ao encontro com a multidão que o corteja. Algo trava o entusiasmo e a criação dos jogadores. Há uma cartografia desfigurada que transforma o sol do domingo, festivo e iluminado, numa madrugada nublada, cercada de sombras. A famosa cobrinha coral não quer correr. Segue lenta, talvez com lembranças dos ascendentes que tramaram com Adão e Eva. Será que ela se atordoa com as culpas do pecado original e acredita que a dor redime?Está desconectada com  o mundo do efêmero, estranhando a pressa e assustando-se com os gritos das torcidas fanáticas.

 O gol não sai. Tem conteúdo recessivo e não inflacionário. O que parecia uma rota de poucas fugas e desesperos se enche de abismos e vulcões. O vermelho, preto e branco,  comungam de uma instabilidade sem fim. Cada semana anuncia uma preparação, cada manhã de domingo um riso aberto, contudo a vitória é, sempre, minguada, como a agonia de um refugiado, perdido nos desertos dos sem rumos. Nem tudo está definido. Talvez, o fim traga a redenção esperada, o  medo do gol se dilua, a bola dance a música ensaiada nas preleções, nos treinos, nas esperanças escondidas. O Santa possui um ar épico, desafia as narrativas de Homero ou as astúcias de Ulisses. Não cultiva o sossego. Seu desenho imita o nervosismo espantoso da bolsa. O importante, porém, é que seus atores transbordam sentimentos, quebram a apatias e tocam em transcendências que renegam medida e multiplicam desejos.

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4 Comments »

 
  • Anderson Carlos disse:

    Muito boa postagem Rezende, nunca tinha percebido a saga do santinha desta forma, porém concordo plenamente. O Santa Cruz sofre com a irresponsabilidade de anos de desleixo e falta de profissionalismo de grande parte dos diretores que passaram por lá. Sua torcida como uma das maiores e mais apaixonadas do Brasil, torce incondicionalmente e sem vaidades vai ao José do Rego Maciel com todas as esperanças do mundo de dias melhores.
    Quando o assunto é futebol, acredito que a tradição é algo onde possui sim, certa magia. Creio que, um clube grande, por mais crises que este possa enfrentar em algum momento voltará a ser grande. Veja o Fluminense que já esteve em uma serie C e hoje é o atual campeão nacional. Assim, vejo que o Santa, este gigante adormecido, em algum momento despertará de seu sono e irá novamente ser o “terror do nordeste”, pois o querido do povo ele nunca deixou de ser.
    Encerro minhas palavras deixando claro que não sou torcedor coral, porém isso não me impede de admirar esse clube e sua monstruosa torcida. Dias melhores para o Santa e o futebol nordestino de uma maneira geral!

  • Marcelo de Barros-História-bacharelado 2 périodo disse:

    Gostei muito do texto,realemnte o Santa Cruz vêm passando por um momento dificil,e como a maioria sabe,não é de hoje,a falta de dinheiro e recursos estruturas motivados pelas administrações corruptas que não estão só no planalto levaram ao santa a uma enorme dívida financeira.
    O que assusta muitos é o fato que mesmo assim a enorme torcida tricolor,comparece cada vez mais apaixonada,ajudando,torcendo,vibrando,cobrando.Se agente fosse assim com a politica,talvez estaria diferente.

  • Marcelo

    Futebol arrasta sentimentos.
    abs
    antonio

  • Anderson

    O Santa move multidões, mas é recebe atenão devida de sesus dirigentes. Agora, pode ser que o trem ande. Vamos torcer.
    Abs
    antonio

 

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