O mito de Ulisses: a vida não se completa

As agitações contemporâneas nos tiram sossego. É difícil cair na reflexão, dialogar com os deuses, sair de uma solidão que enclausura. Há multidões, espetáculos, vitrines. No entanto, a tecnologia e o consumismo restringem os desafios. Ficamos medrosos. Tudo parece reservar perigos. O mundo vive epidemias de desconfianças. As explorações não se foram e a sabedoria tropeça. A sensação de abandono não é exagero. Diante de tantas invenções, estamos vestidos pela incompletude, sem respostas em busca de ídolos, trocando objetos, armando emboscadas,  pisando em serpentes.

Gosto de visitar os mitos. Tenho fascínio. A fantasia me atrai, detesto a mesmice. As portas devem ser abertas para que os mistérios flutuem. Narciso ainda anda pelas ruas. Ele se multiplicou. Afrodite se olha nos espelhos das lojas mais sofisticadas. Édipo continua agoniado lendo os livro de Kafka, perdido no meio de tantos complexos. Não penses que os mitos morrem e desaparecem. Eles têm uma existência surpreendente, não se esgotam com o passar do tempo. As suas encenações são infinitas e sedutoras e nuca seriam terceirizadas.

São muitos. Converso com Ulisses. Não quero dele uma confissão. Admiro suas astúcias. Lembro-me de Adão e Eva, Caim e Abel. Há quem não observe que o único se fragmentou. Talvez, esteja delirando, mas termino sonhando que tudo é uma coisa só. Cada cultura desenha suas aventuras, sem legitimar fronteiras. Há acasos. Quem representa Guevara? Quem seria Nietzsche? Os nós que me prendem sintonizam-se com as vergonhas dos larápios de antigamente? Não sei. As esquinas estão repletas de esfinges e as perguntas não cabem nos livros. Desmoronam-se.

Ulisses viveu as ambiguidades. Enganou e enganou-se. Feriu e feriu-se. Buscou superar as artimanha, mas triturava os inimigos, não cultivava os perdões. Quem lê a Odisseia mistura-se com muitas dúvidas. Como sairmos do destino para entrarmos na história? A construção da autonomia é a negação do pecado. A imaginação sacode as apatias. Ulisses não se espantou com os labirintos e os seus desencantos. Voltou. O desejo do retorno sintetizava o impossível ou era um símbolo da humanização? O canto das sereias é um vestígio de um mistério sem fim.

A história não é o lugar do concreto definido, ela brinca com o invisível. Se o inconsciente nos domina como acreditar em metodologias, em projetos, em fontes escritas? As astúcias de Marx, Foucault, Deleuze, Freud nos ajudam a tatear no escuro e a afugentar certos pesadelos. Como negar que os mistérios são grandes e que a esquizofrenia é quase geral? Os mitos respondem e atiçam indiferenças. Estamos longe de compreender a dialética do esclarecimento. Quem nos espera com a decifração dos tempos? O jogo se movimenta com a inquietude dos olhos e a luz estranha do azul. Não há como segurar a culpa e arquitetar paraísos.

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