O mundo agitado das notícias e a circulação da bola

Fica difícil mergulhar no vaivém do cotidiano. Os meios de comunicação correm, numa velocidade descomunal. Que tempo temos para fazer uma reflexão, afagar uma notícia, avaliar seus impactos? Vale a sede da quantidade. Então, tudo vira uma grande mistura. O espaço da pausa sumiu, o raciocínio é um suspiro e a vida  se oferece de forma passageira. Parece que estamos entregues à visão da superfície. Somos educados para poucos alardes e uma docilidade improdutiva.

Silenciar não é o caminho. Prefiro cultivar voos rápidos do que naufragar nos restos de um copo d’água. Vejo os jogos na televisão e me pergunto se acontecem num estádio único. Os comentaristas não sabem no que inovar. Tudo fica por conta do poder da imagem, pois a palavra mostra exaustão.O detalhe é assumido, como o dono do pedaço. Portanto, a profundidade morre na primeira padaria comprando a sobra do pão francês.

Um pouco de  ruído assanha as lembranças recentes. O Timbu continua moribundo e o Sport perdeu mais uma chance.Não dá para explicar o que acontece. Profissionais estão mais deslumbrados com os contratos e transferências do que com o toque da bola. Assusta. A volúpia da propaganda desfaz o principal e atiça as instabilidades emocionais. Na onda da derrota, o Atlético Mineiro sofreu mais uma. Dorival que se cuide.

Quase não se fala sobre o desgaste físico dos jogadores, na maratona do Brasileirão. É preciso que haja espetáculo. Não se ressalta a exaustão do corpo. São muitas contusões que impedem melhoria do times. É uma alienação gigantesca, em nome dos negócios e das trocas. No final de semana, algumas vitórias alteraram a classificação. O Cruzeiro é lider; o Corinthians continua desconjutado, tendo a companhia do Fluminense, com problemas visíveis. Uma corda bamba inquietante: Botafogo empatou com o Palmeiras, mas São Paulo, Santos e Ceará venceram. Muitos impactos nas torcidas esperançosas.

Na outra margem do rio, a eleição ressuscita temas de fundo religioso. Será que isso? Não é uma concepção de política que se afaste muito do que vemos no futebol.  Reaviva-se o desejo inconciente de salvação. De repente, as igrejas  passam a definir votos. Gozam de uma força  inesperada nas alianças decisivas do resultado definitivo. Ninguém se recorda da democracia e dos debates sobre a sociedade e seus modelos de vida ?

 Os candidatos seguem o que clama seus eleitores. A pedagogia deixa de ser moradia da política. No fundo, todos querem livrar-se do pecado, nem que seja na urna eletrônica. Quando se pensa as várias arquiteturas do social, evitamos muitas banalidades. Há uma preguiça que adormece o impulso de ultrapassar limites. As responsabilidades sobre as coisas, mais pertinentes, se fantasiam.

A infantilização é avassaladora. Nada contra as crianças, nas suas idades tão poéticas. O sério é o que tempo se adianta e as pessoas não se ligam. Divertem-se na internet com assombrações e boatos medievais. Num mundo do virtual, o espelho da vida se torna uma nota de compra e a carência afetiva a trilha para farmácia da esquina. O barco da solidariedade medita sobre os fazeres da solidão.

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4 Comments »

 
  • Adrielle disse:

    Como você mesmo afirmou: de um lado o futebol, na outra margem, a eleição. Eu peço apenas a licença poética de navegar na terceira margem desse rio refletindo sobre suas idéias, enriquecendo meu poder de crítica e crescendo como ser humano.
    Excelente reflexão, Antonio Rezende!

  • Adrielle

    Como tudo se toca, sempre vi a possibilidade de criar o diálogo entre as relações. Aproxima o que aparece estranho e nos faz mais humanos.
    Muito grato pela leitura e conto com você, para sabermos mais do mundo.
    abs
    antonio paulo

  • betinha disse:

    PAULINHO, LER O QUE VC ESCREVE É SEMPRE SURPREENDE PARA MIM, VC SE TRANSFORMA E DEIXA TUDO FAISCINANTE, PENA QUE NÃO DESCUBRI ESSE SEU LADO MAIS CEDO MAIS AINDA É TEMPO E ESTE ATRASO E POR SUA CONTA.

  • Betinha

    Pois é.Nunca é tarde e apareça sempre. Gosto de repartir o mundo com a escrita.

    bjos
    antonio paulo

 

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