O mundo das ideias desmanchou-se ou perdeu-se?

Não se vive sem ideias. Todos têm uma concepção de mundo. Pode ser simples, sem sofisticações acadêmicas, mas traz valores e desejos de seguir na vida. Portanto, não estamos decretando a falência da sociedade e o fim da reflexão. Meu foco está voltado para as querelas políticas. Fala-se no fim das ideologias. Já é um debate que se arrasta. Muita gente nem se localiza no significado da ideologia. Nem se recorda das ligações com o século XIX, com as interpretações de Marx, com as críticas ao mundo burguês. Hoje, a questão da verdade se entrelaça com os enredos do poder. Foucault ganha espaços  como autor de referência.

Nada a lamentar. As transformações ocorrem. As palavras mudam de lugares. Seria uma incoerência admitir permanências, sem pensar que as travessias históricas inventam curvas e atravessam pântanos. Passou o tempo de Hegel, embora isso não anuncie a morte das suas concepções. De tudo fica um pouco, não adianta querer ajustar às relações sociais a um jogo de regras  sem movimentação. O capitalismo tem fôlego, se reinventa, busca também o passado, não se desfaz das ruínas. Enfim, o sonho existe, mesmo com o desmanche das utopias. A cultura remonta-se, os sujeitos se seguram nas gangorras. Aprendem malabarismos inesperados.

As surpresas não são descuidos. A burguesia apronta  manipulações, assusta-se com o desmantelo atual das bolsas e com as brigas para se restaurar a força do euro. Antes a Alemanha, a Inglaterra, os Estados Unidos eram poderosos, quase soberanos, num mundo que repetia a ordem do lucro e da colonização. Nem Obama mantém as esperanças norte-americanas acesas. Itália, Portugal, Grécia vivem momentos de agonia. Qual é saída sem perder a lógica de concentração do capital? Quem se sente punido com as reformas sociais? Há sempre quem lucra, apesar dos prejuízos?

A febre do consumo não impede que as ideias circulem. O que incomoda é que política se estendeu por um personalismo avassalador. A conversa se resume a disputa de cargos e a denúncia de corrupção. Não se aprofunda por onde anda o sentido de haver tanto cinismo. Parece que não estamos numa sociedade de lutas e competitiva. Os partidos não articulam planejamentos com propostas sociais. Não se busca, aqui, a teoria para se especular sobre o famoso sexo do anjos, porém para sair do bate-boca, da dimensão da fofoca que afeta, até mesmo, o noticiário. Flutua-se como se estivesse no vazio de uma dança sem arte.

 A luta se torna pessoal e a democracia não se fortalece. Vive-se de reformas e demissões. O Congresso Nacional não dispõe de tempo para redefinir tanta coisa que desanda nos cotidianos mais básicos. Isso assombra. A política não pode ser a mesma dos tempos de Vargas ou Napoleão, a economia se reorienta para fugir dos labirintos. Quem governa quer, apenas, ornamentar vitrines e esperar as peripécias das eleições? As imagens podem ser coloridas e digitais, mas os interesses alimentam a superfície da posição de mando e da ordem desenganada. Dilma Rousseff suspira diante dos inúmeros contrapontos. O ritmo é sinuoso, a política vacila.

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4 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antônio, hoje, dia 06/12/2011, é dia de comemorar um ano com Ulisses e suas travessuras!
    Muito bom compartilhar todas essas histórias. Uma de cada vez, todas restituindo o nosso viver/conviver humano!
    Por falar em histórias, esta semana escutei uma sobre um índio que, em uma visita à cidade de São Paulo (convidado por um ambientalista para um debate sobre a contaminação, pelo mercúrio, em águas de um rio da sua região), sentiu-se bastante incomodado pela agitação urbana e buscou um ambiente calmo, com cheiro de mato, sol, água e brisa para se recolher. Achou esse recanto no caminho de Petrópolis e pediu ao cientista, que dirigia o carro para parar um instante. Ele aproximou-se de uma árvore contemplativo e lá ficou por alguns instantes. Quando questionado sobre o que fazia, explicou que estava esperando sua alma voltar (pois essa agitação, vivida na cidade tinha separado sua alma do seu corpo). Em seguida perguntou ao companheiro de viagem: – o que vocês daqui fazem para trazer o espírito de volta quando eles fogem dos seus corpos?
    Me coloquei no lugar do ambientalista e fiquei pensando o que responderia a esse sábio índio…
    Ouvir uma boa música?
    Assistir um bom filme?
    Dividir o encantamento da vida com os outros?
    Religar-se com o divino?
    Viajar na embarcação de Ulisses?
    Compartilhar HISTÓRIAS que reintegrem corpo/alma!
    Acho que as respostas seriam estas.
    Nesse momento, com certeza lembraria Rezende e suas infinitas histórias. Histórias que buscam “a controvérsia, a curva, o mito”; “ a travessia”; “ o ritmo da criação”; “ os toques de continuidade e de comunhão”; “o registro do que se perdeu”…
    Histórias que nos tornam infinitos e afirmam que “a morte não é o fim”; que não deixam a crítica nos congelar, mas que nos impulsionam a encontrar saídas solidárias para o caos; que fazem “do texto/das palavras um leito”; que ensinam “a viver cada dia como se fosse uma segunda-feira”;
    Histórias que conversam com o mundo; que dizem o mesmo sem se repetirem; que misturam palavras “decifrando tempos da vida”, entrelaçando letras, “gerando comunhões, articulando valores”; “fermentando misturas”.
    Histórias que valem a pena ousar revisitá-las; que “estende o diálogo pelos espaços da vida”; que “nos separam e nos unem com os que já se foram”; que atiçam, mobilizam, mas também “aconchegam, guardam e protegem o coração”;
    Histórias instigantes; gostosas de “ler e reler sem pressa, longe de qualquer ruído, como se o mundo estivesse deitado nas palavras, adivinhando as possibilidades de decifrar o tempo”, de “soltar as experiências do viver”!
    Histórias/poemas que nos oferecem vozes para desenhar dores e amores; que nos ajudam a compreender que “enfim, cabemos em tudo / somos os outros e nós mesmos / passageiros de uma eternidade lúdica / viajando nas asas das borboletas amarelas.”
    Obrigada Antônio por estes 365 dias que nos provam que “o sonho existe, mesmo com o desmanche das utopias”.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Você me deixa emocionado. Fico sem ter o que dizer. Grato pela atenção e solidariedade.
    bjs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    Com todas as reificações que o homem tende a dar ressignificações da sua construção histórica, o mesmo, tende a aprender que o mundo pode ser compreendido através de diversas lentes, e que, com tal conhecimento passamos a interpretar os seus direcionamentos e perspectivas. No entanto, é necessário tornar essas possibilidades possíveis.

    Os significados que são desenhados pela história em suas demasiadas curvas e travessias, mediante as incursões humanas, em constante processo de aprendizagem, nos proporciona habitar em territórios que podem ser redesenhados para configurar suas linhas tênues. Desse modo trazendo questionamentos e novas abordagens de adentrarmos em campos das idealizações que o homem mantém ao seu processo político-cultural.

    Abs

  • Emanoel

    Sintetizou bem. Vamos buscando. É muita ambiguidade, mas resta construir significados.
    abs
    antonio

 

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