O mundo da renúncia, da possibilidade, dos descuidos

Enfrentar a velocidade das mudanças é um desafio. Os valores estão quebrando-se e a sociedade não consegue saber quais os caminhos que estão desfeitos. Acha que o consumo salva, embora haja desconfianças e insatisfações. No entanto, a confusão não retira o desejo de seguir adiante. Renunciar aos encantos das tecnologias é incomum. As profecias não se efetivaram. As expectativas de uma convivência sem violência não se firmou. A luta continua, as diversidades aumentam, a busca para fugir das dificuldades não cessam. O mundo divide-se em muitos fragmentos. Daí, o cerco das amarguras, as instabilidades constantes. Festas monumentais fazem atiçar cotidianos, porém notícias de genocídios e descuidos são frequentes.

Não é à toa que Bento XVI renunciou. Falou da sua falta de força. Não transmitiu otimismo. Sentiu-se perplexo diante de tantas transformações que exigem a serenidade e o malabarismo existenciais. A Igreja Católica vive um tempo de roteiros perigosos. Não está, porém, encurralada, esperando o fim dos tempos. Perdeu muito do seu prestígio e sofre acusações. Acabou a soberania medieval. Os pactos íntimos com os governos não funcionam como antigamente. As concorrências de outras religiões tomam conta de uma  política singular em nome da fé e das crenças tradicionais. Não faltam dissidências, queixas de pedofilia, máscaras para esconder  pecados.

Desde os tempos da Reforma, o catolicismo não sossega. Respirou na colonização da Américas espanhola e portuguesa, Aliou-se com a exploração, não negou a escravidão, usufruiu de benefícios. Os compromissos com a liberdade, as palavras revolucionárias de Cristo perderam-se. A disputa por um lugar na hierarquia social atinge as ações da Igreja. Os seguidores de Lutero e Calvino expandiram seus domínios e riquezas. Os ecos das discordâncias não se apagaram. Estão presentes, ainda hoje, nos partidos e eleições com investimentos assustadores.

Engana-se quem proclama o fim das crenças e do poder de convencimento dos sacerdotes. Houve metamorfoses na maneira de celebrar os cultos e de prometer a salvação. A busca da felicidade não desapareceu. Ela não se afasta das vontades religiosas, espalham ingenuidades, usam um esquema sofisticado de comunicação. As instituições formam seus impérios. A grana não é sempre sinal de pecado. O discurso religioso se contradiz com a prática. É raro observar confluências que articulem solidariedades. Definir o que aconselha os livros sagrados tornou-se um desafio. As guerras religiosas deixam populações tensas, globalizam medos. Será que o paraíso não é mesmo um devaneio?

A renúncia de Bento XVI merece reflexão. São tantas dúvidas atravessadas no caminhar contemporâneo que os lamentos das chamadas lideranças repercutem e mostram a complexidade do conviver. Construímos uma sociedade múltipla, as possibilidades de refazer as escolhas existem, mas as permanências de descontroles e individualismos não aquietam o coração. O fôlego é curto para compreender as ambiguidades. Nem as orações do Papa superaram o desejo de manter a transcendência do seu cargo. Seu cansaço é motivo para muitas especulações. Os desencontros das missões angustiam os mais sensíveis. O desamparo enche o mundo de drogas e incertezas. A sociedade do consumo brinca com a felicidade na beira do abismo.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>