O mundo das mudanças e das inquietações históricas

Não precisa de muita reflexão para observar que a sociedade não é um todo homogêneo. Há divisões visíveis. As explorações continuam perpetuando-se, buscando justificar e naturalizar práticas dissolventes. Sempre afirmo que não estamos no pior dos mundos. O conformismo convive com a rebeldia, a indiferença com a inquietação. Não é uma constatação dos tempos modernos. Os sofistas desafiavam as verdades da sua época, os liberais a atacavam o feudalismo, os anarquistas queriam a revolução e a quebra do poder. Coloquei os verbos no passado, mas as dissonâncias não cessaram. Hoje, existem os deslumbrados com as tecnologias, sem mover críticas, os entusiasmados com a possibilidade de consumir. O fascínio pela novidade faz parte do cotidiano.

No entanto, as divergências não se extinguiram. Uns cultivam o hedonismo, outros não aceitam a concentração de riqueza. Portanto, não há calmaria.Quem controla a ordem dominante não se cansa de organizar estratégias. Na Idade Média,  o catolicismo tinha suas formas de convencimento e subjugavam multidões. Apelava para os destinos da transcendência, exaltava a força divina e incentivava a vida nos mosteiros. Não suportava indagações, queria dogmas. Com a chegada do Renascimento sofreu abalos. Copérnico trouxe o polêmicas, Maquiavel repensou a política, a estética ganhou outras cores e formas. Depois, a Reforma refez crenças e valores.

Ouvem-se silêncios, mas os ruídos não adormeceram. As grandes revoluções burguesas e socialistas propuseram transformações. Falharam na execução de seus projetos mais amplos. Por isso não vamos julgá-las inúteis, destruir suas memória e atiçar os pessimismos. Olhar as lacunas, sem entrar na onda dos pecados originais é boa alternativa. Nada se completou como a teoria política especulava. O mundo não é o mesmo. Não é à toa que nomeamos períodos, discutimos os significados da modernidade, os desmantelos dos governantes, as fantasias opressoras dos autoritários. As metamorfoses acompanham a história e a cultura se remonta.

O que não devemos olvidar é que a permanência não se foi das nossas aventuras. Os exemplos são muitos. As violências mudaram suas formas. Quem pode esquecer o que está acontecendo na Síria ou a atuação das quadrilhas de drogas no México? O crime sofisticou-se, como também o sentimento de culpa mantém suas vítimas. Vendem-se remédios para levantar ânimos. A indústria não só fabrica brinquedos e automóveis. Seu domínio é vasto e lucrativo. Milhões de pessoas padecem de depressões. Doenças surgem trazendo bactérias destruidoras. A estabilidade, por enquanto, é uma utopia distante. Os saberes não respondem a todas as perguntas.

A história mantém ritmos e procura outros. Não há como fixar um destino, nem apagar as alegrias e os sofrimentos. A razão foi celebrada. Descartes construiu ideias importantes, Darwin assombrou com o evolucionismo. Os sustos se sucedem. Há abismos e planícies, agonias e prenúncios de juízo final. Os espelhos acendem imagens que envelhecem e desacreditam no equilíbrio das relações humanas. Mas os espelhos se quebram, não possuem exatidões. São invenções humanas que pedem magias e leituras constantes. Bloquear a respiração é suicídio. A história é costura e bordado de um texto de muitos autores.

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