O mundo das múltiplas escolhas e imprecisões

Existem, ainda, dualismos que atraem as pessoas e provocam debates. Muitos se colam nas velhas histórias do bem e do mal e tentam saídas salvacionistas. Não observam a diversidade, nem tampouco assinalam como as relações sociais fugiram dos modelos tradicionais e naturalizados. Não significa que houve melhorias éticas. Continuamos cercado de problemas sem respostas ou de apatias conservadoras. O interesse pela ampliação do capitalismo mantém-se dominante, apesar das críticas renovadas. Mas há controle dos meios de comunicação que dita comportamentos e isola rebeldias, espalha sombras e inseguranças.

Ninguém pode negar que a multiplicidade de objetos construídos, de teorias repensadas, de quebra de certos princípios seculares incomodam os que querem os privilégios fortemente individualistas. A modernização aconteceu, invadiu o mundo, redefiniu sonhos, alterou comportamentos. No entanto, a confusão e a perplexidade não se foram da história. É preciso escolher, traçar planos, refazer solidariedades ou combater desigualdades frequentes. Há resistências, porém, aos esclarecimentos e apego às encenações.

A discussão política não pode cessar. Os espaços de autonomia são importantes sem restrições autoritárias ou espetáculos que repetem a sedução do pão e do circo. Os conflitos se acirram nas lutas. Não só há diálogos ou troca de experiências. As armas também se multiplicaram com violências sofisticadas. Se o consumo sugere diversões e riquezas, não faltam fomes e epidemias. A política não é transparente, usa discursos sinuosos. É difícil arquitetar profecias, desenhar relações democráticas, socializar o poder.

A existência das mercadorias, dos valores de troca, as ambições planejadas transformam as vontades políticos. Não houve épocas de calmarias e acordos sem turbulências. A política não se fez sem divergências. Os radicalismos assanharam utopias e revoluções. Hoje, vivemos num mundo de maior complexidade, de maior disputa, de maiores manifestações especializadas. A globalização estreita contatos e agiliza negócios. Influencia nas relações de trabalho, derruba projetos de de fraternidade,  porque se embriaga com a concentração de lucros e joga fora aproximações que evitariam desamparos.

O fato de que a história elegeu o fetiche do progresso merece atenção. Muita gente não abandona o evolucionismo, misturando conquistas tecnológicas com sinais de firmeza nas gestões democráticas. Isso é foco de dubiedades e abala as escolhas. A democracia não tem a profundidade que se esperava. Adormece, muitas vezes, nos malabarismos das leis e nos planejamentos desenvolvimentistas. Num mundo das múltiplas escolhas, não deixa de haver cinismos, armadilhas e ressentimentos. A democracia é companheira da divisão e da autonomia. Morre se ficar submetida aos brilhos das imagens fabricadas e à esperteza das sutilezas excludentes.

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