O mundo das pedras sem sossego

As inquietudes são, muitas vezes, provocadas por fantasias que parecem ingênuas. Mas quem pode viver sem fantasias? O mundo sem sossego é o mundo de sempre, embora as diferenças existam e componham a história. Não precisa ir ao passado distante, nem se apoiar nas energias de espantos, para compreender que o movimento é constante. As transformações demoram ou não passam de especulações. As inquietudes balançam a vida, como as surpresas deixam vestígios nas travessias. A competição se acirra e se espalha. As perdas são tantas que é inútil contá-las. Vale mais construir sensibilidades que dignifiquem o coletivo, dividir o todo em partes e assombrar privilégios cotidianos.

Uma onda de pessimismo contamina subjetividades. Acelera-se um desprezo por uma visão ampla e afetiva. A crise não se  vai da história, cultiva o pragmatismo contemporâneo. Há muitas questões, não adianta reduzi-las ou curtir banalizações. Estamos na famosa sociedade do espetáculo, onde cada evento consagra brilhos e audiências. As imagens são fabricadas para seduzir, transformar desigualdades em atrações. É preciso observar como a sociedade é construída, quem se beneficia com o espetáculo e não colocar as informações como verdades indiscutíveis. O espelho do mundo é cheio de arranhões e comprometimentos. Ele se configura nas torturas e nas sombras anônimas.

O cerco da dominação não perde detalhes. Inventa pedagogias de enganos e ilusões. Exalta o consumismo, mascara a exploração, massacra as maiorias. Não há como esconder as violências, nem salvar a identidade política de governos que se deliciam com as malícias dos jogos do capital. Tudo parece confuso, os escândalos tornam-se assuntos cotidianos e os pesos dos desamparos não guardam esconderijos. Consultar memórias significa desvendar as dores que já se foram e, ao mesmo,  lembrar-se de sonhos que voaram para um infinito híbrido. A imagem de um conhecido poema de Carlos Drummond me avisa que sobrevivem a beleza e o transcendente: existe uma pedra no meio do caminho.

Nem sempre, acordamos quando os pesadelos nos sacodem com medo de enfrentar o dia. No entanto, há insônias que rompem ânimos. As madrugadas ganham tempo e invadem as batidas soltas do coração. As pedras estão imóveis no meio do mundo, provocando temores e a reafirmando impossibilidades. O poeta não se esquece do encanto  das palavras, de suas veias abertas para triturar dissabores. Buscamos análises estatísticas, arquitetamos números salvadores de fórmulas desenhadas no frio dos gabinetes, sem olharmos as permanências utilitárias com suas vestes de múltiplas cores. A tragédia de Narciso não se findou, a rebeldia de Prometeu continua acendendo coragens.

Há sortes e azares que mantêm as ambiguidades e as empurram para perto dos abismos. Será que no mito de Sísifo  encontramos nossa síntese? A ideia de destino se choca com a de história. É difícil que tudo tenha um sentido. Acasos e indeterminações fazem cartografia na vida. Se tudo estivesse traçado, o costurar dos tempos sucumbiria. Criam-se utopias, para que a história não se afaste das mudanças. Os amores e as saudades se misturam com as armas e as vinganças. Suas escritas são frágeis e sem rumo. Os enigmas respiram para que os conflitos justifiquem opressões e as ciências dogmatizem saberes. Há festas no horizonte que não vemos, nem celebramos.

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