O mundo dos exílios profundos e das dores sem fim

A vida corre rápida. O deslocamento acompanha os movimentos de forma brusca. Não há muito tempo para medir escolhas. É preciso sobreviver. O encanto do mercado continua com suas ilusões internacionais. Não há como esquecer as imagens que inventam paraísos e representam fugas dos infortúnios. Portanto, as imigrações não cessam. Ninguém quer se sentir excluído. Há muito conforto anunciado, muitas aventuras desfilando nas telas das TVs.  A questão da nacionalidade ficou confusa na aldeia global. A força do capital desfaz valores e ignora tradições. As pessoas se movem, em nome das boas oportunidades, tentando superar as frustrações, juntando os cacos para segurar as esperanças.

Edward Said escreveu um texto precioso sobre as questões relacionadas com o exílio e os desgarramentos desnorteantes da contemporaneidade. Está no seu livro Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. O tema ocupa as páginas dos jornais cotidianamente. Multidões se mudam de lugares, motivadas por conflitos, pela fome, pela ausência de perspectivas. Observe o que acontece na África. As lutas internas dissolvem laços culturais, fragmentam convivências. Há pressão econômica das grandes corporações, com suas estratégias de acumulação, sem respeitar o sossego dos outros, nem tampouco as afetividades instituídas.

À medida que nos afastamos do mundo do Atlântico, a cena se torna mais terrível e lastimável: multidões sem esperanças, a miséria das pessoas “sem documentos” subitamente perdidas, sem uma história para contar (E. Said). O texto publicado em 2003, no Brasil, é uma denúncia de quem viveu  e conversou com as dores das viagens sem rumos. Said já faleceu. Falou de  problemas que se aprofundaram na sua gravidade. Circulam. Os Estados Unidos têm deportando muita gente. A crise sufoca. Uma saída é expulsar os estrangeiros. Não há discurso de democracia e fraternidade que se sustente na instabilidade. Os ideais da modernidade sucumbem, destruindo paradigmas e mostrando os paradoxos das promessas de sucessos da sociedade de consumo.

Os movimentos migratórios dependem de interesses diversos. São incentivados, quando se precisa de mão de obra barata. Lembre-se dos tempos de pique de revolução industrial ou mesmo do auge da lavoura cafeeira no Sudeste. Culturas se misturavam e populações cresciam  rapidamente. Havia uma recolonização urgente, para atender as necessidade da concentração das riqueza e das mudanças tecnológicas. A Europa se aproveitou de trabalhadores, de outros países, que vinham redimensionar vidas. Alguns conseguiam, mantinham-se firmes nos projetos. Outros eram arrastados pela saudade e pela solidão de forma avassaladora.

 Hoje, os contextos são outros. Na França, a situação é tensa, não muito diferente de Londres, com agitações e protestos violentos. O pragmatismo não se conecta com os sentimentos. Desfigura os ritmos do coração, subestima desejos e emoções. Ter raízes é talvez a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana (Simone Weil). Os valores se desmancham. Faltam espaços para se contemplar o vivido. Flutua-se. Said afirma: O exílio é a vida levada fora da ordem habitual. É nômade, descentrada, contrapontística, mas, assim que nos acostumamos a ela, sua força desestabilizadora entra em erupção novamente. Estranhamos, às vezes, nossas próprias culturas. O exílio desenha a geometria do caos,  a perda da moradia.

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6 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, terminei de ler o livro sobre “Alcides o fim trágico de um sonho”, no qual o mundo da criminalidade nos rouba a vida, os sonhos e nos impõe “exílios profundos e dores sem fim.”
    Obrigada por mais esse chamado a reflexão!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A violência não se vai. É triste, muito trsite.
    bjs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    É a partir do reconhecimento de nossa própria cultura que passamos a entender os significados paradigmáticos que penetram as concepções do homem na sociedade. No entanto, a incerteza da construção de uma congregação moderna, muitas vezes, os destitui desse saber. As migrações maciças que foram construídas ao decorrer da história, e que por incrível que pareça ocorrida desde a pré-história, são presenciadas na atualidade. As causas são as de outrora: políticas, sociais, culturais, desportivas e religiosas, dentre outros fatores as mesmas, nos faz refletir o quão é problemático as configurações que são moldadas através da modernidade. É preciso estar atento as mudanças atuais que carregadas com ideologias do progresso técnico – cientifico da modernidade, contribuem e ao mesmo tempo, desconfiguram as essências sociais de relacionamentos do homem com sua sociedade.

    Abs professor.

  • Rafael Ferreira disse:

    É realmente delicada essa questão de até que ponto a modernidade pode afetar benígna ou malígnamente, acho que é necessário que as pessoas saibam como se adequar a ela e compreender a própria natureza humana, se adaptando, mas não se destruindo, o que me faz questionar também se o que passamos atualmente não seja o início de uma adaptação, por mais lenta, ainda sim pode ser uma adaptação com muitos sacrifícios e reestruturações. Bem isso só o tempo pode explicar.

  • Rafael

    A reflexão ajuda a escolher os caminhos. Há uma multiplicidade de relações. É importante saber que cidadania valorizamos. Solidariedade aumenta a força de coletividade.
    abs
    antonio

  • Emanoel

    Boa reflexão. Há incertezas, as buscas são complexas, mas temos que navegar pelo mundo e tentar fazer algo que o modifique.
    abs
    antonio paulo

 

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