O mundo dos sustos e das criações inquietas

Diz a narrativa que Deus fez o mundo em sete dias. Como um grande mágico, organizou sua obra, mas não desprezou os detalhes, nem garantiu o destino de todas as suas criaturas. Mostrou ter suas escolhas e sua benevolência possui limites. Há pecados e penitências, salvação e fogo eterno. As decifrações, dos tantos mistérios, ainda, perturba os mais reflexivos. Os descrentes desconfiam dos relatos e preferem mergulhar nas mitologias. Outros sentem donos de fés inabaláveis e prometem cumprir os mandamentos religiosos.

A complexidade não cessa de aumentar. As ciências custam a encontrar o eixo da vida.Fazem especulações, inventam teorias e seguem acumulando saberes. Há uma Deus que reina no Ocidente. Mesmo com as dissidências de interpretações, o cristianismo se espalhou e move multidões. Conta, também, com a ajuda dos meios de comunicação e muitos dos seus líderes se lançam na política. O que pertence ao passado não assusta os mais modernos. Existem, porém, muitas lamentações. Os escândalos causam desânimos e provocam perdas assustadoras. É difícil, no entanto, visualizar uma sociedade sem religiões, solta nas descobertas técnicas, sem orações silenciosas.

Os conflitos políticos não se afastam das manifestações de fé e das suas singularidades. Os choques entre Oriente e Ocidente se dão, para além de certos interesses ecômicos. O petróleo tem seus charmes, porém Maomé merece adoração. Os muçulmanos não cedem e lutam para que sejam respeitados. Negam-se a entrar nas seduções do capitalismo. Organizam-se para manter suas tradições, não se importando com os discursos dos poderosos presidentes dos Estado Unidos e da França. Não há unanimidades. Muitos fizeram sua rota de fuga e abominam antigos hábitos.

Os entrelaçamentos, trazidos pela globalização crescente, problematizam as relações e ampliam dos debates. Nada de conciliações firmadas e prometidas, para anular as discórdias. O abalo é geral, com a queda de governos no Oriente Médio. Virão os prejuízos econômicos e os jovens podem redefinir comportamentos. Não é possível previsões. Muitos ruídos estão sendo escondidos. A estrada é esburacada e a poeira dói nos olhos. O medo não é uma ficção.

Outros raciocínios compõem as saídas para tantas encruzilhadas. Tudo não é  esgotável  e a vida exige reviravoltas. Pois é bem isto o que está em jogo na aceitação do mundo: o papel da paixão e da emoção na estruração social (Mafessoli). O predomínio da objetividade sofre ameaças. Os cálculos esvaziaram seus prognósticos e a carência atormenta a sensibilidade. O redefinir-se demanda ouvir as batidas do coração e relativizar os prazeres do consumo. A cultura não pode se alimentar dos encantos da grana e dos cinismos de alguns governantes.

As dualidades estão carcomidas. Expulsar ciganos e condenar ditaduras, deixa perplexidades evidentes.Urge uma releitura dos valores. Sempre existirão lacunas. Somos seres de busca e de esquecimentos. Apesar da possibilidade do perdão, a vingança e o ressentimento não se ausentaram do mundo. O jogo é sutil. O contraponto é profundo. O drama é comovente. Mas permanência da coisificação esfarrapa os afetos. Trágico é não se desfazer das suspeitas e fabricar inimigos. Os deuses, também, se perdem, com as vacilações das suas criaturas.

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