O mundo e a história: interpretações e memórias

Falar da multiplicidade tornou-se um lugar comum. São tantos objetos, tantas formas de conceber a vida que nos deixam perdidos. As certezas viajam rápido, mas temos que cultivá-las. Sem referências não dá para firmar escolhas. A vida não pode ficar muito solta. Duvidamos dos dogmas, porém algum sentimento nos toca e nos impulsiona. Quem sabe se amanhã o oceano se transforme, não exista  cais e estejamos no meio das águas sem embarcação que nos salve. A multiplicidade nos lembra da reinvenção. O mundo começou. Suas histórias não pintam cores transparentes. Suas cartografias não anunciam geometrias eternas.

Talvez, existam mundos e histórias. Como defini-los é ousadia maior. Cada trilha da cultura traz um pouco dessa tentativa de encontrar fórmulas, de percorrer o vivido, evitar assombrações. Pisar no chão sem medo de escorregar. Há muita idealização. Ela ajuda a enfrentar as contradições. Os contrários circulam, visitam os tempos mais diversos, contudo sempre surpreendem. A história é construída no reino das possibilidades. Não é uma linha reta. Nossas experiências afetivas não possuem uma matemática de exatidões. Parecem poemas, metáforas e atiçam a imaginação. Somos os mesmos que investigam sinais de mudanças, fantasiados de códigos, socializando encontros.

Olhar os espelhos desperta. Não só os espelhos comuns. Cada coisa recebe imagens e provoca complexidades. O mundo são as pessoas, suas descobertas. Elas podem se esconder, para legitimar diferenças, aumentar o poder das hierarquias. No entanto, lendo Platão cruzamos com pensamentos que julgamos pós-modernos. Persiste a insistência de periodizar, como se a história pulasse no viver de fatos extraordinários. Muitas vezes,  nossas identificações fogem do cotidiano mais próximo. Sentimos estranhezas localizadas e nos ausentamos. Há momentos de flutuação que desfazem normalidades aceitas e nos colocam nos limites da loucura. Não à toa que traçam as regras. Elas podem ser inúteis. Compõem a ordem companheira da organização.

O mundo e a história, portanto, reinam nas palavras e raciocínios. Não há como negá-los, mesmo que a multiplicidade nos faça confusos. Temos que produzir explicações, para que os sentidos ganhem corpos e possamos dialogar. Os sons, as formas, os significados nos empurram para o meio do mundo e da história. Não adianta simular indiferenças. Os sentimentos pedem toques, não se desenham, apenas, com as certezas. As sensibilidades ajudam a neutralizar a solidão quando ela representa timidez. Para abrir a vida, vestir enredos, é preciso moldar a escultura que lhe dê o mínimo de visibilidade.

Articular as fantasias interiores com o que parece concreto traz a sede e a fome, o afeto e a companhia.. A cultura se expande, não se restringe a colher mistérios. O humano inventa, porque a paralisia do tempo é sua loucura maior. Para contrariar a mesmice, o rascunho de qualquer interpretação elege uma trama histórica. Sem a memória prevalece a atmosfera tirana do apocalipse. A história não se basta configurando profecias. A adivinhação traça urgências, não joga a história para um futuro sem medida. Somos ambíguos, porque incompletos. Não há como estimular a vida sem a invenção, sem o testemunho da beleza e da astúcia.

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8 Comments »

 
  • Franz disse:

    Ao invés de ficar somente em floreios acadêmicos e lamentações, por que não a ação. Dê uma olhada nesta notícia do dia 29/10/12 no portal Uol de título: Desempregado, pedreiro mantém biblioteca de 40 mil livros com a ajuda de amigos. Isto sim é querer mudar uma realidade.
    ‘Intelectual’ que se diz de esquerda, a primeira coisa que deveria fazer é preocupar-se com a educação deste país.
    abs.

  • Frans
    Obrigado pela sugestão, mas gosto da minha liberdade de expressão. E felizmente tenho autonomia e não deixo de assinalar as desigualdades. Lamento sua agressividade vazia.Lendo o blog, com atenção, encontrará muita coisa. Você sabe disso.
    Cada um com seus ressentimentos e suas máscaras. Por quê?
    abs e bom dia
    antonio paulo

  • Franz disse:

    Não quis cercear a liberdade de ninguém; nem tampouco fiz a crítica direcionada ao senhor, quando falo de educação. Sei do seu trabalho como professor e como educador empenhado em sair da mesmice. Agora, por que não pensar a realidade com possibilidades reais? Muitas vezes, bate-se sempre na mesma tecla e despreza-se o simples.

    abs.

  • Frans

    Deve procurar pessoas que correspondam ao seu desejo de luta. Os limites existem e acho que não é preciso ficar batendo nisso.Fui sincero.

    abs
    antonio

  • ladjane disse:

    Traduzo a mesmice como um estado absoluto de conformação.Reinventar-se é a palavra áurea. Vale a pena bater nesta tecla!abs.

  • Ladjne

    A possibilidade é o que nos anima. Vamos conseguir fazer a reinvenção? É um desafio.
    abs
    antonio

  • Franz disse:

    Fico feliz de ver que Ladjane entendeu a minha critica. E declaro a minha admiração pelo professor Antonio Paulo, mas não posso abrir mão de discordar quando acho necessário.
    Como dizia Bobbio: “O Antagonismo é Fecundo”.
    abs

  • Frans

    As discordâncias estão abertas. Fique tranquilo.
    abs
    antonio paulo

 

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