O mundo é vasto e perigoso

O poeta nomeia o mundo. Sabe que os sentimentos são importantes, mas observa que a sociedade se mete num consumo avassalador. O deslumbramento se volta para as vitrines, para os passeios no meio das mercadorias. Pede-se desempenho. O poeta não consegue ultrapassar tantos impulsos marcados pelas ambições. É a tecnologia que atrai, apresenta sua magia, coisifica o desejo.Tudo tem seu preço. O verso do poeta mergulha, muitas vezes, em nostalgias. O mundo é vasto, porém quer fixar caminhos programados. Quem não ver que há pedras imensas atropelando as ousadias inquietas? Como dançar, esticar as astúcias, se pendurar nos trapézios?

O poeta não se retira de seus sonhos. Cobra fôlego, se abraça com as palavras, não discute sobre o vazio. Desconhece a solução final. Há um mistério universal ou deus se sente confortável com os sentimentos de culpa colados nas religiões? O poeta não se chama Raimundo, mas balança seu coração, puxa a imaginação, para que o corpo não se intimide com o ruído das máquinas. O mito é uma narrativa indispensável, nunca se ausentará das conversas, nem sufocará as acrobacias da cultura.Por isso, é preciso não anular as utopias, nem duvidar que os arcanjos ainda sobrevivem.

O perigoso é inutilizar o tempo e classificá-lo com calendários festivos e oficiais. A palavra do vencedor é sempre dúbia, envolvida com a estreiteza das possíveis opressões. Segue o ritmo de quem se fecha no individualismo e se segura em discurso planejado para empurrar as diferenças e inaugurar o abismo. Se o poeta cria mundos, os governantes buscam expandir orgulhos e armam-se para desfazer qualquer autonomia. O autoritarismo é forte, possui disfarces, engana e não apenas coage. Sacode a rebeldia no lixo e espalha regras com sinais de ordens inabaláveis.

Os escorregões acontecem, há necessidade de se entregar ao delírio, mesmo quando o labirinto toma conta das história. Portanto, a inquietação não é loucura, ser torto na vida pode ser um pulo para ultrapassar as banalidades. O poeta não é inimigo de Narciso, não se entrega a uma solidão que cega, nem testemunha o suicídio. Quando a arquitetura das palavras dialoga com a beleza as portas recebem luzes com chaves para para decifrar seus segredos. Quem suporta os espelhos e não contempla o mundo com seus olhos, se afastou do poeta para se escravizar no reino das mercadorias.

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