O mundo não é uma festa ou Paris não é uma festa?

Podia falar que flutuamos entre assombrações e acasos. Não tenho certeza. Especulo porque é precioso pensar, trocar o sono pelo sonho e tentar definir pedaços da história. No meio das inutilidades surgem surpresas e o ânimo se agiganta. As regras existem, como também as rebeldias. Mas há muitas diferenças nos caminhos das sociabilidades. Estamos todos próximos e fascinados pela informação, capazes de transformar a dor numa diversão sofisticada. O mercado abre-se para tudo e nessa velocidade distorce, transforma o pesadelo num conto de fadas. Percebo as fragmentações e indago: como então se livrar das tensões?

A violência visita o mundo com insistência. Não culpo minha época. Volto. Sacudo a memória e contemplo milhares de guerras e as hipocrisias dos tratados de paz. Sei  que o tempo me engana, sei que invento utopias, mas não sei onde começa o ponto final. Quando nasci me colocaram no labirinto.  Só eu? Mas quem sabe o que é o labirinto? A violência é impositiva, justifica crenças. O que aconteceu na França teve um eco imenso, cruel, porém a violência está espalhada. Milhares de pessoas não são atendidas pelos sistema de saúde pública. Os adolescentes morrem vendendo droga, catando tostões. O cotidiano fragiliza nosso poder de resistência e mitifica a sociedade do espetáculo.

As imagens poderosas encantam e banalizam. Tudo parece distante ou muito próximo. Há alguém no meu colo que não consegue abrir os olhos, há tristezas que se escondem com receio do olhar do outro. O medo é uma constante e as soluções provocam debates, entre os senhores do poder, em lugares com seguranças tecnológicas sofisticadas. A cidade em que estava, no dia 13, sofre ameaça de falta d’água. Ela não fica na Franca, nem na Espanha, nem tampouco nos Estados Unidos. Porém possui sessenta mil habitantes e na semana que passei por lá houve uma guerra na disputa do comando das drogas. O susto era grande. Não se estava no Bataclan, o sol queimava e os tiros intimidavam. No dia 13, estava fazendo um conferência em Cajazeiras sobre a contemporaneidade. Soubemos das agressões depois da conversa que tivemos, onde as dúvidas se faziam presentes.

A perplexidade geral se articulava com algumas reflexões feitas. O mundo gira e não temos como controlar a sua velocidade. Há uma pergunta: quem vende a verdade terá o reino do céu? O lugar da justiça é confuso. Muitos países, ou melhor, governantes, possuem ligações com vendedores de armas. Contamos e vivemos as histórias, nossas escritas divergem, apontamos culpados e procuramos filosofias como um berço. E há quem nos proclame animais racionais, planejadores de culturas, astuciosos. Pense e imagine a simultaneidade, o rosto, a máscara perversa e o riso numa lágrima perdida. A maçã de Eva está na sua mão, a ciência no fundo dos seus olhos atônitos. Desate os nós.

 

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