O mundo se olha e se espanta

Tantas são as expectativas que os espelhos se tornam escassos. Os olhares se multiplicam de forma acelerada. Cada dia é um dia e não dá para confirmar calendários. As incertezas nos visitam. Os discursos buscam misturar complexidades e mudam de tom com aspereza ou sensibilidade inesperadas. O passado aparece e lembra que houve hecatombes, pestes, guerras, rebeliões, durezas, fugas, mesquinharias. Nem por isso as utopias se foram, mas sofreram abalos radicais. O que fazer com as competições e as intrigas? Como acuar os pesadelos e sair dos labirintos mais escuros?

Os saberes se consagram como novidades.É um perigo. Não custa dialogar com Benjamin e observar a força da experiência. A tecnologia traz curas, mas também desfaz possibilidades de punir as competições. O peso do valor de troca enaltece mercadorias. Não esqueça do que Benjamin afirmou nos seus escritos. É preciso desconfiar do efêmero, desenhar relações sociais afetivas, sentir os outros, carregar cores que iluminem os instantes. Seduza-se pelos poemas de Neruda e analise quem foge da mesmice. Camus mostrou as idas e vindas do absurdo, as revoltas, os abandonos, merece sempre espaço nas nossas mentes.

O espanto é um deslocamento. Chama para o desafio e flutua acima do homogêneo. As singularidades garantem que os espelhos se renovem e movam imagens de encantamentos. Assim, a história segue não adivinhando o futuro, porém questionando as cartografias que podem ser refeitas. Os mitos primordiais não abandonam o mundo, as tragédias balançam nossos desejos e moram nas nossas incompletudes. Quem despreza Prometeu? Quem nega o sofrimento de Édipo? Quem se alerta com a solidão de Narciso?

É o olhar de cada um que arquiteta a escrita da história e compreende que a palavra ajuda a desfiar mistérios. Não há como fechar as cortinas do mundo, desmontar cenários que nunca envelhecem. As lições existem, as permanências anunciam aberturas para repensar o que incomodava e tirava o sono. É o diálogo que atiça a história, é o imaginário coletivo que sacode as poeiras do mundo e ferve o prazer do texto da lucidez. Respirar faz transformar a atmosfera, despoluir as amarguras e ressuscita as saudades que que batem no paraíso e consolidam os entrelaçamentos dos tempos. Nada está agarrado radicalmente pelo exato, tudo passa pelas coragens das incertezas do acaso. Há voos e asas poderosas, resta contemplá-las e firmar o desejo de não cair no mesquinho. O espelho é o outro?

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …o ensino e o aprendizado da história são mágicos, nos fazem crescer intelectualmente e nos mostram uma compreensão do mundo mais ampla do que um entendimento absoluto e maniqueísta de tudo. O problema surge quando este saber não se expande, não consegue ir adiante e, até mesmo, é usado para fins comerciais não solidários, não coletivos, não humanizados. As narrativas da história mostram cores, pluralidades, diversidades, mostram vidas que não morreram no passado, mas enfrentam dificuldades de chegaram a um número maior e mais significativo de pessoas. Diante desse impasse, vi em algumas matérias jornalísticas e programas de tv, a historiadora Lilia Schwarcz proclamar para que os saberes históricos saíssem da academia, dos guetos e ganhassem novos voos nas redes sociais, nos debates do dia-a-dia. A historiadora apontava para a necessidade dos estudos históricos atingirem um patamar mais elevado de pessoas. E logo, puderem competir com as imposições ignorantes e mentirosas dos fatos sem fundamento que andam seduzindo as massas. Lilia defende novas formas de publicizar o saber histórico para além do público acadêmico, e assim, salvar a beleza dessa ciência tão atacada de forma tão covarde e desprezível nos dias de hoje, entendendo que a resistência ainda é um sonho possível, mesmo que ocorra nas redes sociais e nas novas formas de comunicação, para além dos livros tradicionais…

 

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