O mundo segue suas aventuras históricas

Tudo acontece com  simultaneidade que assusta. Estamos no Carnaval, a grande festa, mas o mundo gira. Não é possível visualizar uniformidades por mais que a sociedade de massas se amplie e exija benefícios. A fertilidade é imensa. Se os espetáculos enchem as ruas de som, os blocos  se vestem de cores, outras notícias circulam, há os quem passam pelas celebrações indiferentes. Comentam sobre as corrupções, investigam as páginas de jornais, procuram leituras filosóficas, fofocam sobre as fantasias dos vizinhos. Portanto, o efêmero e a multiplicidade se casam, para viver a agitação e cogitar momentos de sossego. Existem as mesmices, porém elas não apagam a diversidade e as extravagâncias.

O Carnaval esquenta o desejo, desafia os conservadores. É um período de transformações que não garantem permanências. Negociações emocionais são tramadas, em cada esquina, em nome da liberdade individual. O eco do ontem não se ausenta. Ninguém esquece a vitória do Sport que deixou os tricolores atravessados. O futebol contagia e se entrelaça com as aventuras da folia. O caso Ricardo Teixeira é novela de audiência vasta. O pior é que ele possui defensores, compromete estruturas, mas não sai do foco central. Gasta milhões e não cai, mesmo com as acusações cotidianas.

Perto da folia, Lindemberg foi condenado, não sem polêmicas e agradecimentos à justiça. Tudo no ritmo globalizado, com intimidades devassadas, lamentos escancarados e as orquestras de frevo nas ruas. A mistura é geral, os sentimentos se confundem, alargam contrariedades e inquietudes. Na Síria, continua a violência, a Europa não se aproxima do fim do túnel e a Lei da Ficha Limpa traz respiração para quem confia na democracia. O Carnaval não anula os outros rostos da vida, pois é impossível ficar longe dos meios de comunicação. O mundo se abre a ensaios de opiniões que se estendem.

Tudo foi sempre assim? Há sociedades mais compactas, com proximidades mais curtas, sem suspenses contínuos. Não é esse o nosso tempo. É bom retomar o que Eduardo Galeano coloca: Somos todos iguais perante a lei. Perante que lei? Perante a lei divina? Perante a lei terrena, a igualdade se desiguala o tempo todo  e em todas as partes, por que o poder tem o costume de sentar-se num dos pratos da balança da justiça. Os desencontros não fogem, portanto, da história. Configurá-la linear é cegueira inconsequente. Por isso, que não podemos aniquilar os sonhos, para não naufragarmos no desânimo.

Nem todos apreciam passeios pelo memória. Pensam estar vivendo novidades, quando sofrem com os ataques das nostalgias. Fechar a história no quarto do aqui e agora é gratificar a mesquinhez da imaginação. Tudo é muito complexo, os territórios da cultura são móveis e os fantasmas trabalham sem interrupções. Lá estão alguns assaltando bancos, outros justificando desmantelos administrativos. Há quem se entregue à alegria, some das melancolias e aproveita os mínimos instantes. É difícil desenhar outro mundo, juntar os cacos da fragmentação. Não estamos na Grécia de Platão, nem na Alemanha de Nietzsche, nem na Espanha de Cervantes, mas há espehos por toda parte.

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