O mundo sem a bola:Freud e o mal-estar

As competições fazem a festa ou a tristeza.  Quarta, o Fluminense perdeu e viu ameaçada sua  elogiada campanha. Houve outros resultados que chamaram atenção. O Santos voltou a golear e o Cruzeiro segue com suas vitórias. Finalmente, Scolari escapuliu da mesmice: o Palmeiras superou-se e fez três pontos. Luxemburgo mantém sua sina inesperada  no Atlético, com todos perguntando até onde? Sempre lembro que o futebol é um jogo.

O mundo gira veloz, também sem bola. Há acontecimentos de toda ordem que registram a diversidade humana e os conflitos sociais. Nem tudo testemunha violência ou transgressão. Com certeza, seria impossível escrever uma história que contasse todas as nossas peripécias. Viver a multiplicidade, sem sensibilidade aguçada, poder trazer desesperos. Hoje, são bilhões de pessoas ocupando a terra, com a imprensa esperta e a tecnologia dominando, quase sem limites.

Cada época com seus dramas e seus sentimentos. Há o império das religiões, onde crenças e deuses  manipulam as emoções. Existem  guerras por territórios, outras por riquezas acumuladas.  Corpos sarados, beijos repentinos, motos coloridas, descortesias justificadas. Tudo produzido pela sagacidade humana, julgado pelos seus valores, atravessado pelas suas necessidades. O que era destaque, sucumbe. Do que nem se falava, antes, recebe reportagens especiais.

O apego às informações é evidente. Poucos se mostram indiferentes às notícias, mais ainda, aos escândalos, mesmo que eles se  completem com intimidades privadas. Se a economia é tomada pela inflação, uma briga pessoal, entre seus dirigentes, assume proporções inesperadas. Esquecem que a inflação deve ser controlada e investigam os boatos. Nem sempre, as questões coletivas são consideradas importantes. Há uma ansiedade crescente em ser bigbrother.

Não há o inatingível, o absoluto, o sagrado. A sociedade é, ocasionalmente, crítica, duvida, inquieta-se, porém quer resolver problemas mínimos, sem olhar as desigualdades radicais que contaminam as relações sociais. O capitalismo se reveste de técnicas redimensionadas, com astúcia, mas não consegue livrar a sociedade de seus desencantos mais polêmicos. Nunca é demais salientar uma interrogação: será que  é possível construir uma sociedade humana sem dissonâncias ou é do capitalismo alimentar-se, sem cessar, da exploração?

A sede, pela novidade e pelo espetáculo, está no tempo que moramos. Apesar da massificação, as diferenças persistem e a crise não é um discurso acadêmico. Fere os corpos e confunde as almas. Um mundo perfeito é uma utopia suspeita. Somos cheios de lacunas e a morte nos acompanha. Há um mal-estar constante na civilização. A busca da felicidade é corrida sem ponto final. Freud ficava insone com tantos labirintos. 

Entre ousadias, desperdícios, melancolias, amores, figuras de Andy Warhol  vamos construindo um mundo de (des)continuidades. Não existe garantia de que tudo dará certo ou que um juízo final condenará os pecadores mais audazes. As profecias prometem destruir incertezas ou nos colocar no mapa do céu. O mestre Freud  foi atento às aventuras do desejo. O mundo, sem a bola ou com a bola, é uma invenção nossa. Vivê-lo, com certo equlíbrio, é dialogar com as nossas incompletudes.

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7 Comments »

 
  • marcio lucema disse:

    Antonio,

    vivemos num tempo de dúvidas e incertezas…
    o desejo, atiçado pelo capitalismo, trama a sua teia megalômana…
    tudo é excesso…o consumismo virou uma nova religião…
    depuração e silêncio são palavras proibidas dos dicionários…

    Freud, como você lembrou, foi atento às aventuras do desejo e investigou o mal estar na civilização. Ele nos ajudou a entender as nossas incompletudes.
    Além de Freud, gosto do filósofo do jardim, Epicuro.
    Epicuro também viveu numa época de muitas tensões e incertezas e construiu, no meu entender, uma filosofia sedutora.
    Para ele o homem deveria buscar a autonomia, a felicidade, a simplicidade e a serenidade, privilegiando sobretudo os prazeres espirituais e a busca pela amizade.
    Epicuro tem muito a dizer sobre esse tempo de “homens partidos (…), esse é tempo de divisas, tempo de gente cortada. De mãos viajando sem braços”…

    abraço
    marcio lucena

    Poema Nosso Tempo (Drummond): http://letras.terra.com.br/carlos-drummond-de-andrade/881736/

  • Márcio

    Os desencontos são muitos. Tudo se transforma em mercadoria, então a afetividade se desfaz.Essa busca de autonomia é fundamental.A massificação fermenta a banalidade.
    Para onde vamos, é difícil saber? Mas é preciso articular o coletivo e não desistir..
    um abraço

  • gleyce da paz disse:

    Antonio,
    do mesmo modo que Foucault obsrevou os micropoderes na sociedade, é percepitivel ,na atualidade, a criação de novos meios para dominar.Uma indústria cultural, com a finalidade maior de manipular e não de educar. Dessa maneira, acredito que a religião seria o refúgio para alguns, pois a desesperença abraça a sociedade.
    Brindemos a Freud, o qual com o estudo do inconsciente permiti a descoberta de um novo, assim restabelece o ponte trincada da esperança.

    abraço.
    Gleyce da Paz Neta

  • Gleyce

    O controle social é o limite. Toda sociedade se arruma para evitar surpresas e manter a ordem dominante. O importante é não deixar cair na mesmice. Há sempre espaço para criação e ousadia.
    abs
    antonio paulo

  • Pandora disse:

    Essa falta de garantias as vezes, não sempre, nem constantemente, me angustia… Para onde vamos???? Qual o sentido de tudo isso enquanto a morte dos persegue grudada em nossos calcanhares e no final das contas eu sempre me pergunto se ela é uma chaga ou uma benção!!!

  • Flávio disse:

    Ave! Cuidado com a caixa, Pandora. Não a abra de jeito nenhum!

  • Flavio

    Sempre boa sua presença. Veja se consegue mais adeptos.
    abs
    antonio rezende

 

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