O mundo vasto: pessoas, objetos, sonhos

A cultura é produto de muitas rebeldias, mas também de aceitações e de conformismos. É difícil observar  seus vastos territórios. O humano é múltiplo. Há uma insistência em consagrar essa afirmação que confirma as diferenças e os choques. Na multiplicidade também há pontos de semelhança. A cultura não existiria com conflitos persistentes. O entendimento é necessário mesmo que permaneçam desconfianças. Na medida em que a dominação sobre a chamada natureza aumenta a complexidade da cultura se estende. A sofisticação tecnológica não é ponte de ajustamento e de encontros. Ela traz problemas e incentiva disputas, não deixando de prometer redenções.

A modernização das sociedades nos encheu de objetos. Somos parceiros das novidades. Temos pressa. É comum desprezarmos o imediato. Queremos que tudo se resolva sem muitas dores. Isso é o desejo. Nem sempre nos conciliamos com mundo e suas solicitações. A quantidade de objetos nos aguça a curiosidade, mas também nos confunde. A palavra necessidade muda de significado. Há pessoas que dizem não poder viver sem um automóvel e outros que tomam água mineral francesa. As fronteiras não se encerram nas escolhas dos objetos. Há pessoas que mal conseguem uma moradia e comem o que lixo lhe oferece.

A ideologia do progresso é forte, porém carregada de ilusões. Exalta a democracia de forma medíocre. Consegue muitos adeptos. Há quem goste de acumular coisas. Não percebe o sentimento que habita cada pedaço da vida. Inventa cegueiras propositais e se alia aos mandamentos da exploração. Na vastidão do mundo cabem confrontos, porque os humanos parecem se incomodar com a igualdade. É um juízo precário, porém a curtição da socialização da riqueza não é muito presente na cultura. Nunca esqueçamos as exceções, as dissonâncias, os contrapontos. No entanto, há sólidos modelos de aprisionamento e censura que empurram para opressão social.

As épocas históricas criam suas utopias no meio das diversidades. Não dá para anular o sonho e se ornamentar com pessimismos brilhantes. Além das explorações, formamos outros caminhos e sinalizamos que a continuidade da cultura requer solidariedade. Os rituais mostram bem quantos desenganos fertilizam a sociedade. As festas celebram afetos que sucumbem na vida cotidiana. As guerras tornam-se frequentes para povos que não conhecem o silêncio. Adormecem ouvindo ruídos, com medo, de não conhecer o amanhã. Nem por isso, o pesadelo expulsou o sonho. Não importa a agonia, mas há cores, luzes, sombras, ideias que demovem a profecia do juízo final.

Ficamos soltos. Temos muito  que pensar. As distrações ajudam a amenizar o peso das indagações. Configuramos o tempo com as geometrias inusitadas. O determinismo busca garantias, mas o acaso desmancha certezas. Trilhas iluminadas pelo sol são invadidas por tempestades desfiguradas. Há controles de fragilidades que não se escondem. Assim vai o mundo. Pela conversa de ontem a felicidades plena , longe dos labirintos, recitando as poesias de Drummond, escutando os belos tangos de Piazzolla. Amanhã será sempre outro dia. Joguem os dados e balancem os olhos. Quem sabe  o mundo se firme no encantamento supremo? Brincar faz parte da cultura.

 

PS: Lembrança: no dia 12 de 12(quarta) será lançado o livro sobre os anos 1920 no Recife, na Livraia Cultura, às 19 horas, no Paço Alfândega. Convite geral.

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