O museu de tudo: futebol, arte, literatura, vida

A palavra museu é mal compreendida. Muitos a ligam a instituições que devem guardar as coisas velhas, desalinhadas. Elas tornam-se lugares frequentados por uma minoria. No entanto, nem tudo está perdido. Há referências a museus que são elogiosas. Há um público que se delicia com suas coleções. Em certos países, eles já entraram no circuito do capitalismo. Nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, possuem prestígio e financiamento. Não são, apenas, uma caixa de antiguidades estranhas.

Gosto da palavra museu. Tem uma sonoridade que me atrai. Seus significados lembram-me Benjamim, o pescador de pérolas, com o bem definiu Hannah Arendt. Sigo, portanto, sem preconceito, arquitetando meu museu de tudo, em homenagem ao poeta João Cabral, também vinculado as suas trilhas. Armarei um jogo divertido, com entrelaçamentos surpreendentes. Brincarei com a memória e a sensibilidade.

Recordo-me do ataque que tinha o Santos: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. A bola rolava com elegância. Cada passe era um afeto, um diálogo renovado. A marca do gol se fazia presente. Instigava os atores. Dorval incomodava os laterais. Mengálvio distribuía o jogo. Coutinho tinha uma inteligência rápida. Seu companheiro, Pelé, dispensa comentários. Pepe era avassalador. Chutava como poucos. Ver esses cinco dançarem nos estádios deslumbrava, acordava todos os mágicos aposentados.

Mas quem não conhece futebol, sentirá falta de algum toque. Não custa , então, estender outros  conjuntos. Imaginem um concerto com composições de Chopin, Vivaldi, Mozart, num teatro aconchegante e tradicional. Eles nem se conheciam. Pouco importa a visão física do corpo. Para além do material, há invisibilidades poderosas, fora de qualquer menção aos espíritos religiosos. A simultaneidade nos traz essas articulações dos tempos de forma contínua.

Mas se você não se fascina com a música chamada erudita, viaje. Quem sabe um recital de música popular brasileira com Chico, Caetano e Gil. Como tudo está no território do sonho, convoque o maestro Tom Jobim e se espreguice na poltrona. Sacuda o pó das resistências. Apague as sutilezas das mágoas. Peça a Penélope o manto que fez para Ulisses. Ela não se negará. Talvez, queira, também, ouvir alguns acordes e se desfazer das amarras do passado.

Ainda se queixa. Não há problemas. A cultura foi inventada, para nos acudir e atiçar nossas apatias. Prefere a contemplação das cores. Tudo bem. Coloque-se diante do cubismo de Picasso ou mesmo busque se encontrar nos traços de Salvador Dali. Adormeça no colo das imagens. Acha pouco. Que tal uma ida nas fantasias dos impressionistas ou mesmo um olhar mais histórico nas pinturas renascentistas ? Opções sobram e seu desejo comanda a extensão do seu museu.

Não sossego, pois o espaço é pouco. Se a experiência merece atenção especial, leia os romances de Victor Hugo e  de Hemingway ou entre   no mundo literário de Italo Calvino. Citei pouco e cometi omissões de um colecionador. Cada um construa sua arquitetura de vida, sem afastar-se do sublime da beleza. Nietzsche insistia na força da arte na feitura da vida. É uma pena que não tenha assistido aos dribles de Garrincha. Com certeza, o celebraria, como Dionísio.

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4 Comments »

 
  • Rafael disse:

    Antonio:

    Belíssimo texto.
    Tais “misturas”, que o senhor fez, seriam sensacionais. Nunca poderemos saber no que iria dá, pois essas mentes brilhantes aprontariam com o imaginário popular.
    Talvez um museu da vida traria mais prazer, pois os dribles de Garrincha poderiam, muito bem, estar ao lado de um quadro de Picasso ou a magia de Pelé sendo exposta com uma música de Chopin. Portanto, ” para além do material, há invisibilidades poderosas”, cabe a nós imaginarmos e celebrar como Dionísio.
    Grande abraço e espero sua visita.

  • Rafa

    Realmente, procurei caprichar. A vida é entrelaçada. Separamos as relações, quando, na verdade, elas se tocam. É uma questão de vida e de cultura. Mas nada foge do humano, da história cotidiana. O texto tenta, na forma, mostrar o que se dá no conteúdo. O exercício da escrita ajuda a montar esse jogo.
    abs e grato
    antonio paulo

  • betinha disse:

    Nunca começo pelo seu nome pois para mim vem sempre primeiro o nome com eu te chamava qdo pequena e é assim que te vejo,então apesar de mais nova me sinto mais velha.Quem aprecia a arte não envelhece pq ela nós faz sonhar e o futebol revela grandes artistas de habilidades que comparo com as do bailarino, do malabarista,dos ginastas, lindo pois quem controla o corpo antes sabe controlar a alma. O Museu que guarda a arte e a história e me fascina, gosto da história do passado ela nós faz crescer com seres humanos, aprendemos a não repetir ou devereiamos aprender o que foi ruim e a musica me leva a sonhar e dançar no meu sonho como uma perfeita bailarina com estilo as vezes me imagino uma Isadora Ducan que nunca há vi dançar mais o imaginário vai longe, penso que sou a dançarina do último Tango em Paris enfim, muito bom podermos defrutar de seus artigos sempre sonhadores e verdadeiros ao mesmo tempo este eu passaria horas trocando divagações, pois eu tenho meu propio museu como vc sabe. Betinha

  • Betinha

    Sua visita é sempre gratificante. Sei que gosta de aprofundar as coisas e esse diálogo com o passado é rico. O mundo é muita aventura e temos que mergulhar nessa multiplicidade.
    bjos
    antonio paulo

 

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