O ofício sinuoso do historiador: significados

 

A história é a construção das possibilidades. Não se realiza sem o trabalho humano e não tem um sentido determinado. É importante ficar atento aos diálogos do tempo, pois ele é uma invenção social e articula as experiências. Portanto, refletir sobre a história é refletir sobre a condição humana e seus significados. Quem observa o ir e vir das convivências não deixa de ver   as conexões entre mudanças e permanências. Não podemos contar a história como ela realmente aconteceu, como muitos acreditavam. O historiador consegue efetivar sua pesquisa, munir-se de fontes, mas sempre  projeta mais uma interpretação. Somos relativos, mortais, incompletos. O texto escrito tem suas seduções e suas lacunas. Ninguém esgota o conhecimento, nem é senhor das verdades definitivas.

O historiador  busca  os tempos, arquitetando caminhos, preocupado com as armadilhas e sabendo que há relações entre saber e poder. Não existe neutralidade, porém compromissos. Todo conhecimento parte de uma concepção de mundo, não está acima do seu lugar e da sua época. Os escritos do historiador são importantes para firmar contrapontos e fermentar visões múltiplas. Nada mais insignificante do que achar que cada livro fecha polêmicas e debates. Não há soberanias absolutas,  nem poderes eternos. O campo do saber não foge das imperfeições, nem é dogmático. Requer crítica, dúvida, análise, inquietude, sonho. Deve colocar, em suspeita, aqueles que ressaltam a importância das hierarquias fixas.

O ofício do historiador se alarga na medida em que a complexidade das sociabilidades se insere nas suas temáticas. A história não pertence a um só domínio. É um território sem fronteiras amarradas. É importante o mergulho nas densidades de cada embate, de cada período. Aviva a curiosidade e  aprofunda a necessidade de não se limitar a preconceitos estabelecidos. Construímos nosso olhar a partir do presente. Como afirmou, santo Agostinho há o presente das coisas presentes, o presente das coisas passadas e o presente das coisas futuras. Observamos a obra de cada autor compreendendo sua localização nas indagações dos nossos tempos e não como uma resposta definitiva que elucide os tantos desacertos  que nos acompanham.

Assim, todos se sentem também historiadores e não consagram o monopólio, nem o descartável da sociedade de consumo. A cultura existe para deslocar, provocar estranhamentos, buscar redenções, conviver com sossegos e rebeldias. Com isso, o ofício do historiador ganha corpo e cria incômodos. O leitor é quem encanta seus espelhos e (res)significa o mundo que se estende pelas páginas dos livros. É uma viagem, como a de Ulisses, o grego. Não há silêncios, sem ruídos. O pecado original pertence a uma memória fundante que culpa e desnorteia. A história se reveste de sentidos  entrelaçados com os ritmos múltiplos do existir. Não dispensa a emoção, o desejo, a luz. O julgamento dos sujeitos históricos é tão perigoso quanto brincar no trapézio de um circo sem rede. Melhor que vagar pelos espaços da análise é escutar as vozes e as dissonâncias. Somos compositores de sinfonias invisíveis, mas fundamentais para dançar a vida.

PS: Texto apresentado, com algumas modificações, na Bienal do Livro/Recife, no dia 23 de 09  de 2011, numa atividade com Laurentino Gomes.

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10 Comments »

 
  • Ana Renata disse:

    Realmente, não se escreve a História sem colocar a interpretação de quem a estar escrevendo, não apenas a interpretação,as emoções,a visão de mundo,seu tempo e muito mais.
    Por isso, quando estudava história no ensino médio, via que os livros apresentavam algumas coisas diferentes e isso me levava a estudar não apenas em um único livro mais em vários, pois me esclarecia mais.Agora entendo o porque dos livros de História apresentarem coisas diferentes por esse motivo,de cada historiador ter a sua visão de mundo, mas é claro que a idéia central era a mesma.
    Acredito que é impossível ao se fazer História se mater neutro.
    Abraco!

  • Emanoel Cunha disse:

    Ser Historiador é desvendar os imaginários que permearam e permeiam a sociedade, e para construir esse conhecimento não é preciso está inserido em posições importantes, tal qual os metódicos e positivistas apontavam como verdades absolutas. No entanto esse ofício não é só do mesmo, pois há uma teia de ciências que ligam seu fatos a história.

    A construção do presente está ligada ao passado. Portanto é desse saber que espelhamos nossas histórias num futuro projetado com acertos e desacertos atribuindo significações que são alicerçadas pelo homem através seu tempo e conhecimento .

    Atenciosamente
    Emanoel Cunha

  • Emanoel

    O ofício do historiador é amplo. Deve estar atento às mudanças no ritmo do tempo, sem achar que a redenção vai acontecer.
    abs
    antonio

  • Ana

    Não existe uma única forma de olhar a cultura humana. As interpretações mostram as divergências e os diálogos. Aprimoram a cr[itica.
    abs
    antonio

  • Paulo Marcelo disse:

    Esta variante, de possibilidades interpretativas foi o que me motivou a fazer graduação en História, aos 48 anos………..
    Não encontrei este encanto nas ciências exatas….

  • Paulo

    Isso é bom. Mostra sua abertura para o diálogo.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo disse:

    Mas professor, nem pro senhor divulgar que estaria na bienal? =/
    Aliás, bom texto.

    abraços,

  • João Paulo

    É isso. Esses grandes eventos têm pouco espaço para uma reflexão mais profunda. Mas valeu o encontro. Sempre se aprende alguma coisa.
    abs
    antonio paulo

  • Filipe disse:

    Ao contarmos a história, estamos envolvendo-a das concepções de nossa era e dos nossos sentimentos. Fica claro em suas palavras, professor, que a história é parcial, enquanto parcial é que a escreve. E, as análises dos fatos estão envoltas nos questionamentos de cada historiador, de cada época através de suas ideias.

  • Filipe

    A interpretação dos fatos traz reflexões diferentes. Daí, o debate e a polêmica, as relações da verdade com o poder.
    abs
    antonio

 

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