O olhar do outro: diferenças e tensões

Inúmeras são as definições que tentam cercar o humano.. Tenho muitas dúvidas e vejo que há incertezas e vacilações que se estendem pela história. Não nego que produzimos conhecimentos inquietantes e eles se movem construindo turbulências. A complexidade cresce com as informações que atingem a aldeia global. Nós as inventamos, mas inexistem transparências que nos levem a verdades persistentes. Navegamos, com dificuldades de encontrar o cais desejado e fantasiando calmarias.

Quando a sociedade se envolve com uma atmosfera de divergências mais profundas, as emoções se soltam querendo comandar as ordens dominantes. Muitos desprezam argumentos, sepultam memórias e apostam nos discursos das novidades e dos ressentimentos guardados. As sociabilidades se sentem ameaçadas. O jogo da política se acende com forças heterogêneas. Não é incomum. Somos animais sociais, construímos culturas e a multiplicidade de formas é parceira da história.

Inexistem regras que durem para sempre. Os totalitarismos se esvaziaram, porque tramavam a violência e a uniformidade. As rebeldias se defrontam com as opressões. Valores e comportamentos se refazem e os significados  das teorias buscam outras concepções de mundo. Necessitamos dos outros, os afetos animam a vida, porém as disputas estão presentes, mesmo que apareçam apatias  ou tédios cotidianos. Fabricam-se mistificações, quebram-se costumes, a história move-se.

A questão do poder  assume proporções incomensuráveis na instituição da vida social. Os privilégios merecem atenção especial, embora se fale em democracia, em direitos e deveres. As desigualdades e as diferenças mostram que a costura dos diálogos é frágil. As tensões não deixam de ser visíveis. Programar uma sociedade sem discordância é imaginar paraísos míticos. O problema é compreender a medida das tensões e  o caminho das possibilidades. Uma política que sobrevive, apenas, com armadilhas não deve ser cultivada.

A sociedade do espetáculo não recusa mídias , nem cenários turbulentos. Esquece os escorregões  e se encanta com o feitiço da grana. As astúcias se refinam, verdade e mentira negam fronteiras, a mistura confunde as reflexões, as utopias viram nostalgias desfiguradas. Quem não consegue segurar a crítica, corre o risco de mergulhar numa infantilização constante. A sofisticação dos instrumentos de convencimentos é avassaladora. Afugenta o fôlego da inquietação, alimenta ingenuidades.

Mudar torna-se um verbo milagroso. Traçam-se estratégias. Exalta-se o novo. Anjos e demônios recuperam os lugares dos maniqueísmos de outrora. É difícil a distinção. O olhar do outro carrega-se de suspeitas, fermentando contradições antes inesperadas. Somos animais sociais, como tantos outros. Não somos donos do mundo, temos subjetividades, agonias, esperanças. Os diversos discursos de dominação vestem-se com os mantos do seu tempo. Eles se agarram, muitas vezes, a preconceitos. É preciso compreender como conversam as luzes e as sombras.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>