O perfume e a água, a tensão e a incerteza

Atribuir significado é, sempre, balançar incertezas. Mudam as circunstâncias e os significados anteriores procuram outras planícies ou vulcões. Não dá, porém, para viver sem interpretações. A psicanálise faz suas escutas das dores humanas, sem promessas de resolvê-las. Nem por isso é inútil. Trazem reflexões, dúvidas, silêncios. O importante é mover-se, não, apenas, fisicamente. O sonho é movimento, mesmo que projeto de fantasias inatingíveis. As palavras podem se confundir, mas não estão mortas. Acompanham as variações do tempo, nas suas fragilidades e soberanias. A chuva, lá fora, prevalece e surpreende. Refaz a urbe ou o desmantelo da urbe. Suas águas preenchem as ruas e pedem significados que estimulam tensões.

A organicidade do mundo, tão imaginada pelos românticos, não pode ser jogada no lixo, em lugar de raciocínios matematizados para consagrar objetividades. A instabilidade não é estranha, é instituinte. Quem pensa que a cultura contemporânea está isolada de outras épocas, fragmenta a experiência e sedimenta hierarquias. As diferenças não significam separações, mas desafios ao diálogo. Exigem experiências. Depende de quem olha o mundo, de quem se aproxima das estrelas, de quem não mede as travessias pela extensão do seu comprimento. O próprio acaso é sondável, tem sua regularidade ( Novalis).Parece sem sentido falar no perfume da água. Não é novidade citar o desgoverno. O cotidiano ajuda a construir as leituras da vida. Ele não passa sem elas.

 As águas recebem suas classificações científicas, porém conhecem Narciso e suas extravagâncias. Dizer que possuem cores convida a certa perplexidade. Já viram as cores das águas de rio alargando suas margens e misturadas com a argila? Por acaso, nunca sentiram o perfume das fontes limpas, espreguiçadas em vegetações verdes e calmas? Talvez, a ligação com os descontroles da urbe transforme tudo num passado idílico ou o desgoverno mostre sua força no redefinir das sensibilidades. O que se encontra perdido, quem sabe visita a gaveta de um armário apodrecido, a cama de um hospital de guerra abandonado. As interpretações permitem que as escritas se alonguem e as narrativas se amarrem na simultaneidade dos tempos vadios. A água é uma chama molhada. Quem afirma é Novalis, romântico alemão. Quem advinha o significado que se delineia no espaço da imaginação? Ele é múltipo, foge do que é único, fere a mesmice, desconfia da razão.

O romantismo articula-se com as andanças reflexivas de Rousseau. Quer sentimento, emoção, interioridade. Não ficou estático. Infiltrou-se nas vanguardas modernistas e seguiu adiante. Tentaram associá-lo aos espasmos do brega, por desconheceram sua trajetória histórica. Não perceberam seus embates com o iluminismo, tão importantes para mudanças nas artes e na forma de educar os sentidos. Ele sobreviveu e se estende por atmosferas diversas da urbe tecnológica. A modernidade não é a sucessão de buscas racionais e de feitos dos planejamentos capitalistas. Existem, ainda, suspiros e sussurros e não, somente, buzinas de automóveis e toques de celulares. As moradias estão repletas de aparelhos descartáveis, porque a solidão afetiva é frequente. É preciso muito ruído para abafá-la. As drogas aliviam e preparam, contraditoriamente, o caminho do desespero.

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