O perfume, o charme, a travessura, o jogo da vida

O perfume da vida não tem apenas lugar no corpo. Ele se espalha, nas esquinas e  na contramão da avenida principal. Não acredita ? Acampanhe essa história. Na programação dos filmes da semana, anúncios de muitos mistérios. Fui assistir Igor e Coco Chanel, mas fiquei de olho no sorriso de Julia Roberts. Ele deslumbra as estrelas do firmamento, inverte as ordens do coração. Interessei-me, porém, pelo casal e suas possíveis aventuras.

Chanel desfila, não anda. Inunda a tela, com um charme de quem passeia num tapete mágico. Não se limita às travessuras da beleza. Não mascara seu pragmatismo. Igor treme nas bases. Desmantela-se. Compõe para aguentar a sedução. Chanel quer o perfume que se mantém. Mercadoria rara, mas fascinante. Joga com a vida, não se importando com a mágoa dos outros. Estende-se para o futuro.

Igor, o compositor, suspira. Consegue que A Sagração da Primavera seja aceita. Supera o fracasso da estreia. Sua música assustou os comportados. Cortava a linha do tempo. Tinha parceria com as figuras de Picasso. Era de um mundo de guerras e de revoluções. Começava o século. A desvastação se pronunciava como um juízo final. O capitalismo queria novas colônias. Os artistas desmontavam regras . Os discursos das vanguardas se sucediam.

O cinema traz o diálogo com o passado. Possui suas sintonias, com o tempo, e revela suas permanências. O desejo de mudar não se desfez. Saímos das imagens, para o mundo, com sensações parecidas. Será o perfume das ontologias ou a ressureição dos deuses do Olimpo? É difícil ocultar relações com as mesmas vestimentas. Chanel e Igor vivem uma paixão inventada ou reproduzem o que se alarga pelos cantos de cada escada e de cada quarto?

O jogo da vida não permite interrupções. Talvez, a morte seja um descanso premeditado, pela astúcia de um Grande Mágico. Ganham-se espaços, mas os espelhos não conseguem fotografá-los O cinema se mistura com o que se passa no palácio do rei da antiga Pérsia. A continuada trilha de lamentos de quem, um dia, perdeu o paraíso. A dissonância de Igor Stravinsky se choca com a harmonia de Mozart ? O charme de Coco Chanel some diante do sorriso de Julia Roberts? Por anda a sutileza?

Não faltam objetos diferentes, cheiros de todas as flores, memórias de todas as alcovas. A televisão repete cenas exaustivamente. Vemos um gol,quantas vezes a vontade admitir. A repetição é tão intensa que achamos, em cada imagem, um detalhe especial. Salve-se quem puder entrar na ficção e  na virtualidade. Os fundamentos distraem os reflexivos e testemunham a fé na eternidade. A relatividade do absoluto está no cofre da Bolsas de Valores.

Eis uma questão da existência humana que confunde a travessia de todos: por que pensamos na transformação se nos apegamos à essência do perfume da mesmice ? Compro Chanel número 5 na importadora do shopping, ouço A Sagração da Primavera no home theater da sala, assisto aos jogos de futebol  nas telas enormes das LCDs. O charme, eu invento com as palavras que sonham no papel, como o beija- flor se encanta com  a rosa vermelha do jardim.

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4 Comments »

 
  • Flaviana Rosa disse:

    Você e sua inteligência espetacular. É um deleite filosófico e sensorial ler seus textos. Um abraço.

  • Flaviana

    Grato pelo elogio. Uma visita muito honrada.
    Ainda está por aqui? Dê notícias.
    abs
    antonio paulo

  • vane disse:

    Só voce ,primo, para traçar paralelos com temas tão variados …é realmente o lugar incomum!!!!bj

  • Vane

    É sempre uma visita muito querida. Apareça, dá ânimo essa boa convivência.
    bjo
    antonio paulo

 

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