O peso do corpo e as matrizes da barbárie

Vem sendo comum discursos de líderes políticos celebrando mortos. Mostram um entusiasmo internacionalizado. Depois, exaltam a democracia, pedem paz e controle. A morte de Kadafi transformou-se num espetáculo. Os meios de comunicação encontram instantes de glória. Mostram as violências, atraem audiências, banalizam conteúdos políticos. Não estamos negando a ditadura líbia, nem tampouco as extravagâncias de seu antigo condutor. A presidenta Dilma fez um alerta inesquecível. É importante que a democracia se instale, porém não há razão para festejar assassinatos, nem barbáries. Aonde se localizam os limites das vinganças e dos infortúnios?

No entanto, o mundo ferveu com as aventuras recentes. Tudo em nome da caça a Kadafi e os desdobramentos na tela de celulares e computadores. O peso do corpo mutilado representava uma alegria para os rebeldes, como se a solução dos conflitos tivesse sido encontrada. Política não é magia, nem a reconstrução da cultura é repentina. Quem se lembra do que aconteceu no Vietnam na época da guerra contra os Estados Unidos? Quem esquece as inúmeras arbitrariedades de Stálin cometidas contra seus adversários? O passado não nega perseguições e ferocidades.

O século XXI está, apenas, rastejando. Não se sabe que caminhos nos aguardam, pois os conflitos geram tensões pouco resolvidas com gestões diplomáticas. A pulsão de morte é presente, mesmo no cotidiano mais trivial, e causa chacinas espantosas. O choque atinge a sensibilidade de quem não consegue exaltar a sede do extermínio que não se afasta. Não bastam as bombas atômicas, as trocas de tiros na Palestina, o caos urbano trazido pelo comércio de drogas? As imagens, para alguns, fascinam pelo seu realismo e pela sua gratuidade. A repercussão não é contudo uniforme. O véu não encobre tudo. Os questionamentos acenam para outras ordens, condenam encenações midiáticas.

 Tanto discurso de igualdade sepultado, como se o tempo não andasse. A palavra barbárie assume um lugar que poderia ter desaparecido ou conviveremos com  as agressividades soltas em vez de diálogos entre as diferenças? A famosa primavera, que derruba governos no Oriente Médio, não se concretizou como muitos, cegamente, proclamam. Faltam negociações entre grupos, há choques nas relações de poder e interferências de muitos interesses globalizados. Portanto, quem não acredita que a história se repete fica atônito. É claro que o mundo é outro. Mas por que a memória não constrói pedagogias consistentes e vivemos escorregando como se tudo começasse ontem?

 Tecnologias assombrosas trazem diversões, curas, organizações mais eficazes, porém elas são manipuladas, não vagam como inocentes em busca de abrigos sossegados. Há um mito da redenção rondando as sociabilidades, mesmo com toda a secularização da cultura? Por que os rituais de violência tomam conta  de alguns programas de TVs com patrocínios disputados e espectadores costumeiros? A complexidade agita, desconforta, desequilibra. O sentimento do trágico não é um devaneio vazio. Ele significa origem e fim,  corta a carne e amedronta o coração. Conviver com as perguntas faz com que as esfinges continuem suas trajetórias. A pós-modernidade não se  desliga dos antigos feitiços. A história nem sempre escuta o tique-taque dos relógios.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • João Paulo Lucena disse:

    Professor,

    Acredito que tanto a queda de Khadafi, quanto a morte de Bin Laden estejam intimamente relacionados a quem dita as regras no jogo. A meu ver, Khadafi já poderia ter sido deposto, assim como Bin Laden, grande ícone da resistência à política “pacificadora” estadunidense. Neste caso, contando desde o emblemático e trágico 11 de setembro, passou-se uma década até a sua captura. Ainda no Bin Laden, questionar a demora da sua localização é também colocar em xeque o estatuto científico na medida em que, junto aos discursos emitidos acerca dos problemas político-militares, enrijecia o disseminado discurso geral do quão árduo era capturar o ardiloso e escorregadio terrorista.
    No caso da Líbia, não acho que se trate de uma revolução de caráter popular. Mas da apropriação das insatisfações e anseios do povo líbio como encobrimento de uma elaborada estratégia política que está para além de uma simples emancipação ditatorial. Vejo esses acontecimentos como símbolo do poder que as grandes nações detêm na política interna de outros menos desenvolvidos. A inserção da Líbia na teia global da “democracia” revela também a sua “reabertura” econômica nesse mar tempestuoso que é o mercado do petróleo e seus derivados. São outros tempos: o lobo está mais esperto, as estratégias das quais se utiliza estão mais diversificadas e falar em vestimenta é algo antiquado e falho.

    Abraços,
    João Paulo Nascimento

  • Emanoel Cunha disse:

    A história trilha até mesmo por segmentos desconexos com suas próprias narrativas, isso é perceptível nas relações construídas do homem com sua sociedade. A partir do momento que incursões política na contemporaneidade são apresentadas no cotidiano compreende-se que há permanências das formas que ela se relacionava e se relaciona com o seu passado. Remodular a sua forma diversificada que é mais complexa, porém compreensível, não sendo impossível e destarte, estruturando-a para o desenvolvimento do homem demasiado.

    Abs

  • Emanoel

    Muita coisa se repete e nos deixa surpresos.Mas é a história com seus tempos múlitplos.
    abs
    antonio

  • João
    Com certeza, há muita confusão política e máscaras soltas. Vale o poder de manipular das grandes potências.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>