O poder feiticeiro da política nas costuras dos pactos

 

As manifestações de rua alertaram para a falta de compromisso de muitos políticos com a gestão dos problemas. Deixaram surpresas e medos. Muitos se sentiram pressionados, mudaram  discursos, mas continuaram com cinismos e artifícios. As medidas tomadas não atingiram o esperado. As tensões continuam, pois a disputa eleitoral para presidente traz movimentos frequentes. Acusações, desistências, simulações fazem parte de uma incerteza que toca a todos. Os partidos pouco representam do que dizem suas siglas. Faltam projetos, sobram capacidades de aliciamentos e interesses pelos cargos.

O quadro é confuso:  socialistas sabem pouco sobre a divisão das riquezas, outros leram manuais que estão longe das reflexões de Marx, embora se coloquem como seus seguidores. Corporações poderosas movem negócios obscuros. O que significam  democracia, coerência, ética? O importante é a prática, dizem alguns. Os questionamentos são vacilantes, os jornais não aprofundam análises, o  capitalismo não descansa. Difícil é sonhar com as alternativas no meio de tantas contradições. Sempre existiram divergências, não apaguemos os conflitos, nem arquitetemos solidariedades impossíveis. Agora, valem os fascínios do mundo veloz da mercadoria, por mais que os líderes fabriquem promessas.

O Brasil não é exceção. As contaminações garantem as parcerias globalizadas Há insatisfações, porém, que diluem ânimos. Não se pode resumir tudo ao crescimento desmedido do poder de compra. A pressa perturba a possibilidade de avaliar a inutilidade de tantas coisas sacudidas na sociedade para fustigar desejos. As aparências exigem sorrisos, destaques na coluna social, amizades dignas de celebrações em restaurantes privilegiados. A afetividade desaparece ou se mascara nos abraços ruidosos, com simbolismos perversos.

A história segue, ou melhor, as histórias seguem. Não vamos cair na ideia de que há uma sucessão de fatos que se completam. A complexidade merece outros raciocínios. Quem está no centro do poder se equilibra usando força e convencimento. Há  expansão da repressão e é imenso o investimento nas astúcias da manipulação. Quem governa não dispensa os disfarces, embora insista na máscara da transparência. Os meios de comunicação garantem pactos e ajudam a sofisticar o controle.

Os desacertos não são pequenos. Alargam-se, intimidam, consolidam-se. Mas as reações acontecem, nem tudo está no leito do berço esplêndido. Há espaços de denúncias, perguntas que incomodam, transgressões inesperadas. Tudo resulta de incômodos que esvaziam o convívio social ou  a vontade de viver o cotidiano tornou-se indefinida e questionável. Horas de trabalho, lazeres pouco criativos, famílias sofrendo agonias para assegurar futuros. As religiões entram no ritmo do pragmatismo,  buscam firma-se nos sistemas de dominação, não desprezam a política dos favores.

As crises não são novidades históricas. Lembrem-se das guerras mundiais, do nazismo, da escravidão, da bomba atômica. As narrativas pessimistas ocupam memórias, desagradam quem alimenta a construção de utopias. Mas a dissonância não sai da escuta e inquieta sempre. Não temos como adivinhar se haverá um fim para tantas idas e vindas ou se tudo é um movimento sem sentido. Fazem sucessos os risos dos agentes espertos dos acordos pragmáticos. Quem se esconde da crítica se veste com uma ingenuidade que tem o perfume da hipocrisia.

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