O poeta não se fatiga com o tempo

 

O lugar dos santos não é, apenas, no altar. Nem sempre precisam de templos. A sociedade elege suas crenças, no exercío das suas relações com o mundo. Há muitos mistérios  e dúvidas.  Não bastam os princípios religiosos, as infinitudes dos deuses. Os incomodos exigem olhares mais anônimos e concretos. Cada dia traz seus mitos e os arruina. Mais um vaivém da vida que assanha o absoluto. A velocidade do contemporâneo pede novidades, mesmo que elas fiquem navegando por superfícies e nem distingam as cores dos horizontes.

Gosto da notícia que leio hoje, suspeitando que amanhã ela se dissolverá. Seu tempo é relativo, dança no mínimo e se balança no agora. O Egito arde, com milhares de pessoas nas ruas. Descontentamentos que se soltam e vão adiante. Nada de planos objetivos e definitivos. É o aceno da raiva, do desamor, da coragem. Vi um rebelde tirando seu retrato na frente da sede governo. Uma cena que está fotografada nos jornais. Tanscendências efêmeras, porém representativas. Quem imaginaria tal ato em plena Revolução Francesa? Outras lembranças, outras aventuras, outros sentidos.

Quando se fala em crenças, não se quer apagar a verdade dita objetiva. Os entrelaçamentos permitem convivências esquisitas, mas animadas com as possibilidades de não sepultar o presente. Portanto, as alegrias se dimensionam em instantes inesperados, nos momentos dos desesperos amaldiçoados. Trago exemplo simples: o goleiro Saulo, do Sport, salvou seu time de uma derrota, nos minutos finais de uma partida. Ganhou um altar no reino da torcida rubro-negra. Até quando, não se sabe ?

Mesmo com o poderio das instituições, a sociedade se reinventa e derruba muros consolidados. Não necessita de guerras cotidianas. Às vezes, no silêncio, no murmurar, no gesto, o coletivo se levanta da letargia. Muitas mudanças se dão, quase distraidamente. As insatisfações mexem-se, depois é que formam suas direções. Ultrapassar os limites, no sonho, é uma trilha da transcendência. Os céus podem ser encontrados na praça, num banco escondido, onde você sente um abraço que nunca imaginou ou o sabor de um beijo que se eterniza.

Minimizar, sintetizar, analisar. Serão esses verbos suficentes para traçar os encontros da vida ? Na resposta, não cabe nem talvez. A vida é construída com todos verbos do alfabeto da sensibilidade humano. Resumimos para não gastar as palavras, com vazios vagabundo. Uma história comprida se torna curta e cai nos espaços das análises objetivas. Quem não escuta pouco sabe do poder de se desenhar nomes e significado. Contar e ouvir, não desperdiçar o ritmo da respiração, consagrar a memória da experiência.

O desligamento constante do que se foi, apodrece os sentimentos. Não esquecer o poeta, de tudo fica um pouco. Drummond tinha afinação dramática e ironia travessa. Sabia dos desfazeres do coração, mas os colocava nas armadilhas das rimas e dos traços das letras. Quem foge das descontinuidades não se alicerça em nada. Tudo tem a forma de um círculo, com retas flexíveis que penetram na sua interioridade. O poeta não se atrasa na oração, nem decompõe o universo em fragmentos que se desintregam.

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2 Comments »

 
  • allyson renan disse:

    realmente os acontecimentos tomam importância bastante efêmera nos dias de hoje.entretanto sempre acreditei que não devemos construir altares para o deleite de outrem;e sim para nós mesmos.os monumentos construidos pelo homem não tardam em serem fatigados pelo tempo,mas o sentimento do dever cumprido ecoa pela eternidade.

  • Allyson

    A construção da história é cheia de idas e vindas, mas cada ação tem seu lugar e merece ser citada. Faz parte do humano se sintonizar nas realizações dos outros. Grato pela visita.
    abs
    antonio paulo

 

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