O preconceito trava o sentimento e a reflexão

Numa loja de subúrbio, por onde meu ônibus passa, tinha uma placa anuciando: Descartáveis Variados. Pensei, de imediato, se não poderia levar tal placa para a entrada do  planeta Terra. Mas surgiu uma impossibilidade: onde ela fica localizada ? Difícil resposta. O planeta gira, recebe carinhos do sol e das estrelas. Não costuma descansar. Agita-se, como seus moradores, na busca de sincronizar seus elementos básicos. Sua natureza possui rebeldias. Nem sempre, a confiança está firmada. Vacilações transtornam cotidianos, desesperanças disfarçam sofrimentos.

O tempo é turbulento, adapta-se às urgências do mundo dos negócios. Não dá para esquecer o dinheiro, pois tudo tem seu valor e a piedade vaga por outros cosmos. Mesmo com as conversas globalizadoras, coerência e harmonia são incomuns. As relações se complicam, com as demandas das hierarquias de poder. Nada de estimular devaneios progressivos. Voltamos ao passado, sem muita atenção, e as regras se dissolvem, como picolés no calor de fevereiro. A palavra descartável cabe na aventura pós-moderna, embora sua soberania goze de relatividades e descompassos.

Os preconceitos não sucumbiram. Enfeitaram-se com as útimas modas. Eles se reproduzem, com muita facilidade. Acreditar que as colonizações se findaram é cair nas armadilhas das inocências. Daniel, do Barcelona, craque de milhões de euros, avisou numa entrevista: Recebo, dos adversários, o nome de macaco, em jogos que disputo . Para os mais leigos, o Barcelona é um time europeu , com uma torcida imensa. Lá está Messi, com suas artes inconfundíveis. Pois é. Daniel diz não se surpreender. O pior era quando trabalhava, com o pai, no sítio, plantando e vivenciando a fome.

Ele é um dos astros da seleção brasileira que não conseguiu quebrar o tabu contra a França. Terminou amargando mais prejuízo, talvez se espelhando nas instabilidades do Santa Cruz. O descartável e o preconceito dialogam. Lembram as grandes colonizações que não cessam de se refazerem. Elas estenderam suas sofisticações e pemanecem ativas. Configuram as subjetividades e deletam as críticas. Fragmentam sinais de solidaridade e fermentam rivalidades. Sacodem certos princípios éticos no lixo, com cinismo que nunca descartam.

A autonomia nos salva, se ela vem acompanhada de reflexões radicais. Culpam-se os colonizados do seus famosos atrasos e analfabetismos. Marginalizam e justificam as existências de explorações. Ainda teimam em salientar a bandeira da inferioridade, com auxílios de saberes e crenças bem articuladas. Exterminaram vários povos, lançaram a bomba atômica, criaram hábitos doentios de consumo. Não são apenas as culturas, ditas carentes, que espalham horrores. O olho na miséria do Haiti, não esconde as crueldades da escravidão e do totalitarismo.

O relato de Daniel não é exclusivo. Não se trata de eleger vítimas, porém de visualizar sentimentos e desmontar desigualdades.Na multiplicidade, a sociedade rompe com ordens, sem contudo apagar comportamentos e ideias que destroçam qualquer tentativa de consolidar os afetos. Os preconceitos desfilam nas casas de espetáculos, nas fantasias de carnaval, nas reuniões das Nações Unidas. Por isso, é perigoso desenhar modelos civilizatórios e combater os etnocentrismos. Quem cogita, que a história abandona suas dissonâncias mais mesquinhas, atirou a memória no abismo do descartável.

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2 Comments »

 
  • Michel disse:

    A crítica, o aspirar a autonomia, aparece ainda como uma saída para este estado de coisas. Realmente as colonizações não cessaram, a tarefa da memória como diria Brecht é desnaturalizar novas simetrias que esse ofuscar das sociabilidades persiste em produzir.
    Tarefa militante para o historiador não Antônio Paulo?

  • Michel

    O historiador desafia tudo e é desafiado. Compreender as idas e vindas do tempo é uma ousadia.
    abrs
    antonio paulo

 

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