O ritmo das urgências, os sons dissonantes

Dizia Aristóteles que o presente é uma passagem. Santo Agostinho não o contrariou. O presente é uma ponte, uma travessia. Não significa que o passado é um tempo morto. O esquecimento está sempre ligado ao movimento das lembranças. Assim, a memória agita seu trabalho, para retomar os vaivéns da vida. Selecionamos acontecimentos, periodizamos e apagamos desprazeres. O tempo entretece-se com a história, não poderia se construir sem ela. A recíproca é verdadeira. O tempo, como uma invenção social, não se protege com homogeneidades. Ele dita ritmos, distorce harmonias, desmancha ansiedades.

Formulamos conceitos, mas não é necessário o mergulho definitivo nas abstrações. A compreensão da vida se arquiteta no escutar da experiência. Ela não desapareceu. Tomou outras formas, porque as sociabilidades se modificaram. Walter Benjamin lamentava muito as perdas trazidas pelas tramas dos capitalismo. Tinha suas boas razões. É necessário captar, também, a historicidade e a capacidade de renomear. As relações de trabalho atingem o cotidiano e interrompem tradições. No entanto, surgem outras práticas e outras maneiras de conviver. A história não deixa de ser narrada, mesmo que as imagens escondam palavras e acordem gestos.

É importante acompanhar o caminhar da cultura. Os ciclos da natureza impressionavam, provocavam as meditações dos filósofos de outras eras. Hoje, há quase uma ditadura das máquinas. Elas formulam urgências, fragmentam desejos, expandem consumos. Tudo é medido, com exaustão e ruído. Contemplar não é dever de ninguém. A conversa se legitima, se ela não se reduz a uma simples perda de tempo. O relógio anuncia segundos, não olha o por do sol, nem se preocupa com a lua e as estrelas.

O mundo, reconfigurado, torna-se cenário de muitas negociações. Elas provocam inquietações, porque pedem urgências e correm atiçando os preguiçosos, transformando sinais e desenhando cartografias nunca vistas. No entanto, não testemunhamos revoluções, nem rupturas radicais. Existem permanências que ajudam a refletir sobre as identidades. Temos que reconhecer o outro, para que ele ganhe seu espaço. Por isso que o tempo se reinventa e se distrai, alimentando lembranças e projetando futuros.

Pensar as diferenças faz parte das exigências da convivência social. Elas controlam desesperos e nos  solicitam para não sacudir fora a paciência. Se o reino das máquinas tritura os sonhos do paraíso bucólico, não vamos cair no desconsolo. Cada época construi seus paraísos, de acordo com suas relações, com a natureza e suas emoções cotidianas. Portanto, as diferenças costumam estimular a cultura, desde que não consagrem as desigualdades econômicas ou justifiquem a miséria social.

Trata-se, aqui, de reforçar a criação e multiplicar as possibilidades de seguir adiante. O olhar fixo para o passado é um tormento. Fertiliza depressões. A loucura da velocidade, sem rumo, é, também, angustiante. Voltemos ao começo. O presente é uma ponte, pois não anula a disposição de enfrentar o que é estranho. Ele permite que o diálogo seja o sentido da vida, mesmo que expresse dissonâncias. Quem se recusa ao eterno e elege o efêmero, talvez pense que se salvou dos riscos de cada instante. Na imaginação cabe tudo: o abraço, o beijo e o adeus.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, seu texto hoje está, simplesmente, ENCANTADOR! Parece ter dias, que a alma do autor emerge inteira. Belo por demais!
    Como diz um amigo, arte-educador, Fernando Azevedo, “o olhar leitor não se ganha de presente”. Com certeza, é uma conquista cotidiana que permite que “o diálogo seja o sentido da vida”.
    Esse seu texto (e tantos outros) merece estar na sala de aula, para a aprendizagem da narrativa, da rememoração (sem vitimização do passado e do presente, nem sacrifício do futuro). Para ensinar aos alunos (o que nos ensina Benjamim) “a possibilidade de narrar o vivido, tornando-o infinito”… E que é no outro que a narrativa se enraíza, se planta, floresce e se eterniza. É pelo outro que construímos pontes!
    Obrigada por “reforçar a criação e multiplicar as possibilidades de seguir adiante”.
    E, só para contrariar a imaginação (que cabe tudo):
    Um abraço, um beijo, sem adeus!
    Flávia

  • Flávia

    Você tem me ajudado a decifrar muito coisa. Realmente, sou muito ligado no díálogo e na simultaneidade. Gosto do vaivém e de fugir da objetividade exagerada. Tenho pensado em usar os textos nesse semestre. Vou ver com a turma.
    bjos
    antonio paulo

 

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