O silêncio majestoso e cínico da manhã natalina

A manhã do dia 25 de dezembro  possui um silêncio singular. Dá a impressão  que o mundo parou ou pediu para sair da rotina cotidiana. Houve um acordo invisível para um recolhimento coletivo? Os costumes contribuem para  trazer claros sinais de repetição. A chamada noite natalina é inquieta e plena de rituais. Nem todos podem usufruir as  delícias mais comuns, porém as celebrações invadem a atmosfera sem pedir licença. Quem gosta se sacode, ultrapassa limites. Casa cheia de presentes, excesso de comida tradicional, chocolates especiais, sorrisos, abraços, beliscões. Não vamos questionar o tamanho da sinceridade de cada gesto. A cultura não sobrevive sem disfarces. Vale a simbologia, nem que seja por poucas horas.

O nascimento de Jesus guarda-se no presépio. Nostalgias se revelam, amores ressurgem nas lembranças, taças de vinho tilintam velozmente. Baco tem assento reservado na cabeceira da mesa. A convivência estreita  rancores e alguns se alienam com os anúncios deslumbrantes das TVs. Afinal, a tecnologia participa da festa com muita soberania. Define ritmos, aguça desejos, coisifica afetos, fantasia intimidades com suas máquinas poderosas. Tudo na geometria da urgência, pois o trabalho se confunde com as férias e as imagens de riqueza compõem a sinfonia barulhenta do consumo.

O mundo é profano ou foi a modernidade que arquitetou a desobediência ao sagrado? Houve mudanças radicais, desde que o valor de troca inventou astúcias e alargou o império dos serviços. As religiões competem com sermões extravagantes e promessas que correm nos meios de comunicação. Uma competição ardilosa, muita longe de generosidades, interessada, também, na circulação de produtos e de olhar-se no espelho das vitrines. É a vitória do rótulo e do supérfluo, o ânimo arrastado da fé, o carisma dos pregadores sofisticados e bem definidos nas paradas musicais. Esse é o século XXI, violento e autoritário, no entanto globalizado e concentrador de ilusões e armadilhas. Não é o Admirável Mundo Novo de Huxley.

As orações não sintonizam com as batidas do coração. Os ensinamentos revolucionários de Cristo perderam força com a institucionalização e as manipulações crescentes da sociedade capitalista. As lágrimas existem nas novelas e comovem. Nada de prolongar dores. Para evitar desmantelos, aí estão as drogas dos mais variados sabores, as  clandestinas ou as vendidas nas farmácias, formadoras de redes frequentadas por um grande público. O sentimento tem seu peso, mas a conversa avalia por anda o preço do petróleo e a recuperação da bolsa de valores norte-americana.

O silêncio é companheiro das dormidas esticadas ou das insônias assustadas com o tempo que desenha mapas filantrópicos e estimula os encontros dos amigos secretos. É claro que há as frustrações. Ninguém se acorda solto das circunstâncias da vida, purificado de todos os pecados, em paz com os vizinhos. O movimento é o que importa, para pensar o que trará o futuro. Poucos percebem os cruzamentos da simultaneidade. Nem conseguem narrar suas experiências, entretidos com vídeos sensacionalistas da internet. O silêncio se enfraquece, os ruídos reconstituem as alegrias e as agonias. As máscaras mudam de forma e de cores. O carnaval se aproxima embriagado pelo profano.

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4 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Adorei o texto(na realidade já esperava por algo assim).É o tipo de texto que,ao ser lido,mostra-nos o quanto fechamos os olhos para as farsas cotidianas!
    Enfim,nossos natais deveriam ser feitos diariamente(o ano todo)!Esse,ao ponto que chegou,tornou-se simbologia comercial,infelizmente!Mesmo assim,por incrível que pareça,ainda têm-se uma essência de valorização do ser humano como pessoa(pelo menos em alguns momentos deixamos de ser coisas…ufa!)
    Feliz Natal,profº Antônio Rezende!Muito obrigada por nos presentear,todos os dias,com esses lindo presentes(seus textos).
    abs,
    Amanda.

  • Amanda
    Pois é , as festas significam alguma coisa e de maneira diversa.
    Tudo de bom para você. É muito bom ter sua companhia no blog,
    abs
    antonio paulo

  • Emanoel Cunha disse:

    Tive que ausentar desse dia aqui no blog. No entanto, como aqui é um espaço de dialogo de conhecimento professor, posiciono-me favorável ao seu pensamento.

    As essência do cristianismo modificou-se e vem ganhando novas caras com o passar dos tempo. Suas relações para com a contemporaneidade possui novos significados. Coisificou-se do fiel ao seus sistemas administrativos e ideológicos. É, o consumo persiste em atribuir menção a várias variantes do ser humano na atual sociedade, que desfaz com seus encantos a destituição das relações sociais, vivemos nos tempo da efemeridade, onde o que vale é passageiro.

    Abs

  • Emanoel

    Tudo tem gosto de mudança. O problema é deixar de lado o diálogo e a reflexão. Cair no consumismo é sinal de abismo.
    abs
    antonio

 

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