O sorriso do efêmero de dentro do coração

Torci pelo Flu e curti a vitória. Gosto da festa. Alegria gera bons sentimentos, quando acompanhada de permanência. Mas sempre penso outras coisas. Os sorrisos parecem,muitas vezes, colados no rosto. Não encontro o lugar da sua expressão maior. A sociedade traz uma carga de celebração ensaida que provoca desconfianças. A convivência com o fugaz é enganadora. A televisão dita normas, impõe manifestações, sente-se a criadora. Isso não revela o que vem de dentro. Há ensaios para tudo.

O  espetáculo é de todos. Ele se desfaz, contudo, com uma velocidade incrível. Solta-se, como uma pluma. Ontem, era o Flamengo. Assim, prosseguem as aventuras da vida. A escuta do ritmo do coração demora, não é parceria do efêmero. Lembro-me dos frankfurtianos, das suas reflexões. Não significa sacudir a alegria fora. Enganar e desprezar a crítica quebra a rebeldia. Fixa a máscara.Os colonizadores foram cruéis. Implantaram a escravidão. Usufruíram de lucros majestosos, fabricando uma história progressiva. Desmancharam identidades culturais.

 A resposta vem e a linearidade não se segura. O drama que vive os poderosos na Europa e o medo de perder o espaço, para seus antigos dominados, estendem os caminhos da memória. As voltas são grandes e os atalhos se cruzam.Se a euforia perpétua é um fingimento da sociedade de consumo, é preciso descobrir como desmascará-la. Não dá para consagrar a mesmice dos momentos. Seria construir o território da mercadoria, com o sangue manipulado pela grana. As coisas de dentro buscam saídas, no entanto temem os olhares das imagens coloridas.

Os desconcertos não são defeitos, nem lacunas. Quem se recorda dos desencontros sabe que eles também comunicam sabedoria.Vi, no metrô de Paris, pessoas de várias etnias. Uma multiplicidade que agita e visualiza traçados culturais, com bordados primorosos. O sentimento que prevalece não é o de comunhão, mas sim de competição. A disputa não se esconde. A exploração risca cada momento e tumultua quem elege o sossego. Em cada esquina, o ruído prospera. A torcida do Flu se esbaldava, porém seu técnico campeão lamentava a falta de estrutura. Os contrapontos estão acesos. Não adianta desfigurá-los.

 A profissionalização crescente mexeu com o mundo dos prazeres.O famoso mal-estar da cultura firma suas configurações.Os labirintos existem, mas a capacidade de desvendá-los não é uma falácia. Navegar, em oceanos, se articula com a vontade de  não temer turbulências. O vaivém é de todos os tempos, das descontinuidades e das serenidades. Na procura de superar a incompletude, seguimos costurando os feitos e conversando com as frustrações. A curva nos coloca o sobe-e-desce. A esterilidade das avenidas vazias não alimenta o desejo de distrair-se, sem entulhar-se de mistificações.

 Melhor do que tudo é reinventar o mundo, esticando as boas energias que formam o efêmero. Longe das síndromes, dos perigos e das falações inúteis. As histórias de Scherezade são alimentos fundamentais. Apesar dos descontroles e das desigualdades, não há necessidade de apagar das fantasias, os arcanjos, os gênio e as fadas. Se o absoluto não é a nossa moradia, a transgressão nos une a Prometeu. O mito é a resposta, para a narrativa do fascínio.

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4 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    “Navegar, em oceanos, se articula com a vontade de não temer turbulências”. ….
    Bonito, gostei!
    Abs
    Flávia

  • Rosário disse:

    Depois da aula de hoje a leitura do texto me faz comungar com o realismo mágico de Garcia Márquez.Ele me aproxima dos caminhos narrativos da ambulante literatura de feira. Ele nos aproxima do ato de sorrir com ou sem dentes, mas com o corpo todo. Penso nas mágicas do cigano melquiades. De um tempo a outro, de uma viagem a outra livrou-se da falta de dentes, exibindo em Macondo a arte de rejuvenecer sorrindo.
    Sorrindo reiventamos o mundo.

    Abraço

  • Rosário

    Foi no alvo. O corpo passa o sorriso quando não é fugaz. Assim , a magia segue.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia

    Na vida, a calmaria não existe. O ritmo é das andanças sem fim.
    abs
    antonio paulo

 

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