O suicídio é coletivo

Cada momento agita dúvidas. Mas há quem se defenda e olhe o mundo com uma apatia sempre comum. Basta-se ou pensa bastar-se. Pouco se liga na agonia do outro. Quer estabelecer a densidade da sua rota, enfeitiçado pelas novidades. Imagina que as reflexões estragam o êxito. O importante é se concentrar nas vantagens individualistas, atiçar as espertezas, sem menosprezar a força das disputas. É o mundo concentrado nas aventuras do eu poderoso que comemora a sua euforia perpétua. Parece uma ficção especulativa, porém não se engane. As andanças humanas se afastam das sociabilidades afetivas e festejam narcismos renovados. A sociedade adoece historicamente.

O suicídio é um trapézio ou a saída para certas agonias? A resposta é fugidia. No entanto, as pessoas se escondem, disfarçam suas dores, apostam nas poupanças, entram em religiões abarrotadas de granas, exigem soluções e falas simpáticas. O cinismo é um convite para se livrar das éticas ou das intermináveis discussões sobre a solidariedade. O vazio político fortalece um tipo de interesse de olhares descomprometidos. Resta ser pragmático, confiar em garantias anunciadas com orações pelas empresas e pelo mercado. Se acontece o fracasso, a solidão se torna insuportável, o paraíso inabitável, o fim da vida se apresenta com uma janela ampla. É Prometeu na pós-modernidade?

O dor amedronta, mesmo a pequena dor física. O narcisismo vende receitas e não alerta para as tragédias. Tudo se cura desde que a acumulação se concretize, deliram alguns. O estar no mundo define regras firmadas por quem domina e interiorizadas por quem não as criticam. A velocidade dificulta o exercício da paciência. A regra maior é não perder tempo, expulsar as ações contemplativas . Quem leu Kafka joga seus livros no lixo. Não sente que o labirinto não permite metamorfoses transcendentes. O capitalismo não desenha, apenas, o material. Ele assalta as subjetividades, idiotiza na massificação cotidiana, desqualifica sem perdões.

Meu desempenho aparece com minha famosa felicidade. Porém, aquelas velhas pedras continuam no meio do caminho. Há quem não sinta os tropeços. Há quem subestime o coletivo e ridicularize o abraço do outro. A atmosfera pesada das incertezas frustra, desfia o planejado. Quando o individualismo se alia aos traços da depressão as alternativas se fecham no largo comércio das farmácias. Não se vê que faltam amparos, conversas, ombros, corpos sorridentes. O suicídio constrói seu império. A sociedade não existe sem o coletivo.As mortes se comunicam.Trazem a cartografia que rege suas relações.Ainda se inquietam as incompletudes primordiais que decretam sentidos atordoados e incertezas persistentes,

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    … é, parece um bom momento para lembrar e discutir toda a literatura do Kafka e questionar porque ela é atemporal, não se perdeu, pior, é profundamente atual. Como não se identificar com livros e contos que falam de uma poderosa burocracia implacável que nos persegue, nos ameaça e nós sabemos que ela é perversa, mesquinha, corrupta e desonesta, mas não conseguimos vence-la? No mundo Kafkiano, a liberdade só chega com a morte do corpo. Kafka descrevia como ninguém a impotência de ser quem se é num mundo em que não se conseguia vencer, achar a saída do labirinto para as questões existenciais da vida. Acho que é um bom momento de revisi-lo e tentar aprender novamente com ele a riqueza de perceber os horrores da impotência e quem sabe, descobrir outra saída que não seja a morte, da qual o mesmo entendia como a única liberdade possível, diante da opressão cotidiana sem fim…

 

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