O suspense histórico das conspirações

 

Não há como observar que a história é transparante. Sempre existiram dúvidas. Temos recursos tecnológicos imensos, mas também suspeitas indefiníveis. A escravidão trouxe atmosferas de violências. Desde o início, havia tensões. Ser colonizado é um peso. Isso não passou. Continuamos navegando nas turbulências, com desenganos frequentes. A proclamação da República foi uma surpresa? A renúncia de Jânio foi um drama? As ditaduras eram nacionalistas? Por que se fala tanto que o fascismo está voltando? E os golpes são preparados com articulações internacionais? Quem governa possui alguma referência ética?

Não vamos ficar envolvidos com as perguntas. O Brasil não é privilegiado. Mussolini e Franco tinham boas relações com a Igreja Católica. Os anarquistas foram perseguidos em 1917. A bomba atômica revelou compromissos obscuros.O assassinato de Kennedy se transformou numa novela policial. Conspirar é se infiltrar na cultura política. Mostra as desconfianças. Há sociabilidades, porém circulam armadilhas, emboscadas e a democracia segue cheia de atropelos. As salvações religiosas estão virando um comércio habitado por máfias que apelam para o divino. E o futebol, grande divertimento, não negocia com milhões vindos de estranhos mercados?

Portanto, é preciso não particularizar. As sociedades se sentem ameaçadas por mistérios intransponíveis. Morreu Teori, as penitenciárias explodem, os partidos cogitam construir novas alianças, Temer não perde oportunidades de apresentar suas gentilezas. Não despreze o cotidiano. Centenas de ônibus são assaltados, pessoas se escondem na madrugada, passear transformou-se numa aventura. Não chore só pelos  mendigos que estendem as mãos nos sinais. Já soube dos massacres na Síria ou prefere assistir as fantasias do Big Brother? Há escolhas e apatias, acompanhadas de sacos de pipocas e pizzas especiais. As televisões precisam de férias remuneradas.

Os impasses são pedras que assustam todos. O medo escapa no ritmo de cada coração. Quanto tempo para pensar nas revoluções que arrebentaram o mundo prometendo igualdade e fixaram autoritarismos medonhos? A história não é um conjunto de ações preparadas para reforçar a boa convivência. Quem a criou deve  ser um andarilho mágico, arquiteto de labirintos, solitário. A humanidade inventa para tentar desfazer os sufocos. Conspiram nos paraísos, nas rebeliões socialistas, nos gabinetes do Congresso, nas pesquisas dos professores titulares. Tudo está desprogramado de forma esquisita. Nada garante que os anjos nunca conversaram com os demônios.

Risque os manuais de filantropia, espie na gaveta do armário antigo, fofoque com seu vizinho. Mantenha os olhos abertos, visite as praças, ouça os latidos dos cachorros. Os ruídos anunciam alguma coisa. Escreva sobre suas dores, não represente no meio da rua, rasgue os jornais de ontem. Não acredite que o sossego será soberano. Muita gente, disputas gerais, cansaço e ineficiência dos governos cínicos ampliam o ir e vir. A imprensa adora notícias sensacionais. Conspira para que haja conspiração. Largue a impaciência e se desfaça das sabedorias expostas. Hostilizar é doentio quando aprofunda a agressividade e joga fora as chaves do afeto.

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