O tempo do calendário e a vida desafiando a inércia

Tudo muito próximo do dia 31 de janeiro. Encerra-se o ano, segundo a ditadura do calendário oficial. Festeja-se, assim, para dar mais uniformidade a cultura e unificar as datas da burocracia. Dentro de cada um, o ritmo é outro. As finalizações se dão de outra maneira. As emoções não descansam e olham o calendário com certa desconfiança. Periodizar a vida é importante, como medida de controle, mas com o objetivo de enganar as surpresas. As reviravoltas desmancham suposições e tendências. O movimento da vida é incessante e atiça o bom sono dos preguiçosos.

Antes persistiam os séculos. Cem anos de história cabiam com dificuldade na memória coletiva. Sempre com a preocupação de selecionar. O valor maior era o acontecimento, o extraordinário. Construíam-se divisões que marcavam feitos e aventuras. Houve as revoluções, as quedas de governo, o imperialismo das potências européias. Contava-se nos dedos aquilo que estava fora do comum e se dizia que vinha, lentamente, atravessando as barreiras do tempo. Cada povo desenha seus números e nomeia e seus encantos.

Tudo, hoje, se desacomoda no voo da velocidade. A quantidade predomina, nem sobra espaço para saber direito o que está se passando. As medidas são outras. Não dá para visualizar sinais de inércia. Quem ousaria afirmar que a história tem um sentido ? São tantas invenções, tantas práticas sociais se sucedendo ou mesmo dialogando que periodizar tornou-se uma façanha. A gente vai tocando a vida, sem susto com os noticiários. As relações se transformam, mesmo que garantam disfarces e preservem mesmices.

É que a subjetividades redimensiona seus desejos e segue os caminhos que suas energias consomem. O modo de produção capitalista não tem anseios de eternidade bem-comportada. Ele se costura, entre linhas sinuosas e geometrias pós-modernas. O descartável dura poucos dias. O lixo é imenso, inquieta e causa problemas para os técnicos da administração pública. E os desequilíbrios lá de dentro, as manobras do inconsciente? Os psicanalistas, perplexos, tentam entender as epidemias de síndromes pânico. Talvez, falte adaptação do humano ao mundo das coisas fabricadas.

A ambição invade espaços internacionais. É uma arma dos meios de comunicação. Se possível transmitir algo que interesse a China, ao Japão, ao Chile, ao Equador … Imagens de todas as cores e formas. No futebol brasileiro, os campeonatos regionais sentem-se combalidos. Surgem as disputas patrocinadas, muito longe daquelas partidas domésticas ou mesmo das peladas da várzea. As confusões são sofisticadas e aprontadas por instituições que não andam de bicicleta.

O tempo não larga as trilhas que acompanham os projetos de cada um. Ele não tem um rosto único.Brinca com as identidades e perturba os que se fixam na tradição. Argumentar, segundo as premissas diárias do calendário, é perder a imaginação. A ousadia não merece abandono, nem vamos encurta as passadas das transgressões. Quem mantém a sensibilidade aguçada não simpatiza muitos com as fatalidades. Nada de comparar a vida com um jogo de xadrez. O conhecimento de ontem  se entrelaça com o sentimento que flui no agora. Enquadrar tudo num destino é tecer mediocridades anônimas.

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4 Comments »

 
  • Telma Lúcia disse:

    Bom dia Prof. Paulo Rezende.

    Tenho acompanhado seus artigos, enquanto grande parte das pessoas se encanatam e desecantam com as festividades natalinas, outras poucas criaturas permanecem atenado aos fatos que compoem o cenário da nossaa história, escrevendo e descrevendo os contrastes que nos incomoda, sem deixar-se envolver totalmente pelas emoções perdendo a sensibilidade e percepção da realidade que nos rodeia.
    “Treino é Treino / Jogo é Jogo”.
    O aguardo amanhã.
    Telma Lúcia

  • Telma

    É sempre bom saber da sua presença. A vida corre solta, mas poucos se incomodam com os desmandos. Tenho procurado trazer essas reflexões. Ser crítico não significa ser pessimista. Cuidado e atenção ajudam. Ninguém é dono da certeza, porém não custa duvidar das verdades que nos vendem cinicamente.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Antônio Paulo,
    Tanto o seu texto quanto a imagem nos atravessam com uma força que desassossega o espírito… E isso, próximo ao derradeiro 31 de dezembro, período que parece aguçar mais as nossas razões e sensibilidades, nos ajuda a refazer as trilhas, os projetos, as ousadias, as transgressões…
    Rezende empresta sua alma para Ulisses e nos pergunta:
    “Quem ousaria afirmar que a história tem um sentido?”
    Calvino empresta sua voz a Marco Polo e responde:
    “Existem duas maneiras de não sofrer o inferno. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” (As cidades invisíveis – 1990)

    Enquanto aprendermos a reconhecer quem e o que não é inferno, preservarmos, e juntos ousarmos criar/alargar esses outros espaços, o sentido da História vai se estendendo e se entrelaçando às trilhas que acompanham os muitos projetos (já que “não temos um rosto único” e “enquadrar tudo num destino é tecer mediocridades anônimas”).
    O importante é que o ano que se inicia possa nos fortalecer, ainda mais, no nosso desejo de ampliar espaços, de multiplicarmos os Ulisses e os Marco Polo que nos habitam e permitir que “o conhecimento de ontem se entrelace com o sentimento que flui no agora”.

    Bjs

    Flávia

  • Flávia

    Dá certa inquietação, mas há também uma ironia que diverte e aconselha. Com astúcia e energia bem animada , podemos seguir adiante. Sair da mesmice e fluir, como nos tapetes mágicos da infância.
    bjs
    antonio paulo

 

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