O tempo não se vai sem vestígios

 

Quem aposta no esquecimento, numa história com novidades constantes, pode escorregar. A memória está acesa, apesar das pressas cotidianas e da necessidade de lucrar com as notícias escandalosas. Mesmo na vida íntima, o cerco do passado não se extingue. A memória é inquieta, não joga tudo no lixo, possui ritmos e enganos. Os vestígios lembram ruínas, mas também atiçam a força das permanências. A cultura precisa de tradições. As vanguardas não surgem do nada, como milagres celebrados pelas religiões. Conversamos com o mundo, porque o presente não se resume a instante de urgências. Ele cativa suas continuidades.

Os sentimentos quando acenam com a despedida deixam traços. Como apagar as idas e as vindas anulando imagens e projetando futuros descolados?  Os amores se renovam ou seguram ondas turbulentas. O lugar da saudade não se esconde. Ele tem espelhos poderosos que a memória involuntária aciona com eficiência. Não espere que tudo termine e seja guardado embaixo do travesseiro. As mortes são disfarces. O adeus traz sofrimentos ou alívios, porém preserva rostos, cheiros, desprazeres, recomeços.

O tempo segue fabricando enigmas. Não existimos sem ele, contudo não há como aprisioná-lo com certezas. Não é à toa que filosofias de desgastam procurando construir paradigmas para pensá-lo. Os calendários estão fixados nas portas, nos ponteiros dos relógios, mas como medir ansiedades ou desamparos? Portanto, as especulações vestem as intimidades e as objetividades oscilam. Somos também adivinhos, inventamos sobrevivências, temos ficções que nos sustentam.

Se a história segue não significa que se envolva com destinos determinados. Ela é parceira das instabilidades. Há repetições com outros significados que nos confundem. Queremos que o tempos nos dê respostas, para consagrarmos sossegos. Não adianta. O inesperado tem uma fome enorme e amedronta até os mais poderosos. Recordem-se dos deuses do Olimpo. Recordem-se dos apelos das crenças. A história não é lugar de descanso. As dúvidas não são metafísicas inúteis. Elas movimentam, derrubam paradigmas e trazem sonhos. Quem se espreguiça sem medo de espantos termina se assustando com malabarismos.

Definir o tempo é acreditar que a vida tem um sentido, um julgamento final, alicerçado no bem e no mal. No entanto, o ontem pode não se parecer com o hoje, não ser o avesso do que está sendo vivido. Escrevemos, desenhamos, refazemos espetáculos. Estamos entrelaçados numa sociedade que brinca com o tamanho do caos. Não há como apontar para um sentido, nem diluir memórias. A vida não se livra de pesos. A insustentável leveza do ser merece cuidado ou tergiversações. Conte seu tempo com se fosse um jogo de regras estranhas e inevitáveis, sem negar que há muitos esconderijos.

 

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