O tempo passa, a memória fica, o progresso engana

Estamos no ano 2012, galopando com rapidez. Nem parece que chegamos ao século XXI, estamos no pique da sociedade de consumo, com o Partido dos Trabalhadores no poder central, sob o comando de Dilma Rousseff. Muita coisa se foi, mas as esperanças também se sentem ameaçadas. Não há perspectiva de mudanças substanciais. Insiste-se no valor das transformações teconológicas, na genialidade dos cientistas, na possibilidade de revoluções nos estudos da genética, na dificuldade de visualizar qual o caminho das religiões diante de tantas reformas nos hábitos e nas crenças. Há muita confusão, pois a ideia de um tempo progressivo, marcado por avanços espetaculares, não vingou no campo da ética e da política. Cogita-se firmar censuras, interromper transparências, internacionalizar o cerco da colonização pós-moderna.

Um olhar passageiro, pelo início deste século, não deixa saudades. Sacuda a memória. Não estranhe que continuem os conflitos entre judeus e palestinos, que os imigrantes sofram perseguições na Europa. A corrupção anda veloz e atinge até as negociações esportivas. Acumulam-se dissabores, embora persistam disfarces com intenções de esconder os desencontros. Aposta-se no êxito das aventuras do mercado, para distrair as dores, jogar no lixo as especulações pessimistas. Acontece que o capitalismo tergiversa, os escândalos não descansam, as incertezas financeiras não diminuem. Surgem suspenses com o agigantamento da China e da Índia.

A  exaltação da quantidade esvazia os movimentos de solidariedade. Quebrar  pacto em nome do lucro é comum. A história treme, a memória alerta, porém os dominantes possuem recursos para manter as ilusões e muitos não saem do território da ingenuidade. Apesar dos desmantelos, as estratégias do poder se redefinem. As acusações fermentam as conversas. Falta punição. As denúncias aparecem, ajudam a mobilizar a imprensa, causam rebuliço. Depois, há outras inquietações, personagens saem do palco e tudo naufraga no esquecimento. As frustrações mudam de lugar, as lembranças também. O melodrama entra em cena.

Tudo isso acompanhando o corre-corre da fama. As vitrines estão brilhantes esperando seus manequins. Não interessa que sejam individualistas, que estimulem comportamentos nada saudáveis. A grana balança o entusiasmo. A sociedade não vive sem agitar as bandeiras dos ídolos. Portanto, a simulação de cuidado é superficial. Vale mesmo o pragmatismo, como se o mundo flutuasse e elegesse sua sorte num grande sorteio de loteria. As drogas se renovam, perturbam convivências, não escolhem vítimas, nem grupos sociais. As dúvidas permanecem: reprimir ou educar? Quem consegue sobreviver ao assédio constante dos golpes organizados, com graças virtuais?

A memória fica , porque ela é seletiva. Busca estradas alternativas e entender as arquiteturas dos labirintos. Não adianta garantir que existe avanço nas idas do tempo. É preciso não se enganar com o fetiche do desenvolvimento. A felicidade tem seus limites, mas a procuramos. Ela não significa a nova invenção da informática norte-americana. Por isso, o ruído dos tempos são fundamentais para não mergulharmos em rios sem margens visíveis. A história é uma construção. Isso é não novidade. Resta saber, contudo, como essa construção é feita, a dimensão do compartilhar. A respiração é parceira da imaginação. O corpo pede sentimentos e aconchegos.

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2 Comments »

 
  • Monique disse:

    Ostenta-se mesmo a ideia de que a única “evolução” que precisamos é a técnico-científica.No entanto, as controvérsias da atualidade nos mostra que nossas necessidades são muito mais humanas.Essa lógica egoísta, competitiva e agressiva deixou nublado os valores morais, desprezou a consciência de coletividade.Precisamos voltar a destacar mais o altruísmo, a compaixão.Esse mundo moderno esta insustentável e já lança na sociedade seus suspiros de agonia.Prefiro concordar com as palavras de Eduardo Galeano e ter esperanças de que este mundo esteja, mesmo, “grávido” de um outro mundo melhor!
    Boa análise , Antonio.
    Abs.

  • Monique

    Precisamos de mudar o foco. Muita quantidade esvazia a qualidade. Por isso, as carências se multiplicam.
    abs
    antonio

 

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