O tempo possui seus descansos e suas viagens

 

Há quem diga que a vida é uma viagem. Reforça seu teor de aventura e lembra as andanças do inesperado. Estou viajando. Chego, hoje, na França. Fazia um bom tempo que não ia lá. Não se trata de  passeio, embora nunca se pode negar que, no meio de caminho, sempre há pedras e pérolas. Vou para uma banca de doutorado e firmar contatos acadêmicos. Debater um pouco o que penso e as ousadias que me chamam.

Anuncio a viagem, porque interfere na escrita do blog. Não terei com mantê-lo, com assiduidade. Posso escrever, mas não quero assumir o compromisso de estar pronto, como estou na minha casa. A vida é viagem e não devemos subestimá-la. Curti-la faz parte do jogo. Não adianta mudar de espaço e continuar preso no mesmo cotidiano. Renovar o fôlego aumenta a capacidade de invenção. No entanto, até sexta está resolvido. O bolg sai. Depois, depende das circunstâncias.

Não é uma despedida, mas uma interrupção. Quem sabe, uma dia desses,  encontre uma boa máquina e solte o verbo. Certo mesmo é que,dia 4 de 12, estou de volta. Muitas águas terão rolado, mas o Haiti se mantém despedaçando, sufocado por problemas. É a história de uma continuidade cruel. Fico triste, porque sei que existem muitos Haitis pelo mundo. A concentração de riqueza é um dos absurdos que ameça a sociabilidade.

Infelizmente, as negociações não param, com a expansão da miséria, em muitos lugares, e distribuição de crack em outros. Mergulho na utopia não consola, porém acorda, retira do pessimismo. Muitos fabricaram idéias otimistas, mesmo testemunhando explorações e violências. Sem acenos para outras paisagens, não daria para se aquietar com tanta desconversa. Portanto, a fantasia e o sonho não devem ser sepultados. A apatia é um grande mal.

Viajo para Paris, onde aconteceram muitas rebeliões. Recentemente, os protestos ganharam as ruas, encurralando o governo. A  revolução nunca terminou, porém produz memória, atiça contrários. O capitalismo não quer  acordo com fim das disparidades. Incentiva o consumo, cria ilhas de segurança e se descuida das epidemias. Faz o jogo da acumulação, firma seus critério de lucro, honrando uma minoria. A sua hegemonia não é absoluta, nem silenciosa.

Deixar de acreditar nas dissonâncias é discordar do direito de reivindicar. Nada de prolongar as mesmices e formar tradições que disfarcem o desejo do diferente. A viagem é uma vida. Às vezes, em dez dias, desconfiamos de cinquenta anos. O tempo é escorregadio, com seus múltiplos calendários. Estou saindo do calor, para sentir frio e rever amigos, olhando de longe as idas e vindas do Brasil. Uma aprendizagem, sem dúvidas.

Embarque feito. Vigilâncias burocráticas cumpridas, deslocamento em todos os sentidos. Visitas ao passado, confrontos. Tudo corre. O mundo se estreita e se estranha. A travessia é de todos. Não importa o tamanho do círculo, nem o último canto do poeta. Quem vive não sossega. Sou muito raiz, sem contudo ter medo do novo. Para quem acha que a história é a construção das possibilidades, a viagem é um manto que se estende com bordados cativantes.

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